quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Crítica: Um pequeno favor

O que esconde as aparências



Um pequeno favor (EUA, 2018), dirigido por Paul Feig (Caça-fantasmas), especifica a essência da personalidade humana e seu maniqueísmo quando se está em jogo a sobrevivência ao narrar uma trama complexa de manipulação entre duas novas amigas e o marido de uma delas.

Apesar do requinte técnico na fotografia e na locação principal (a mansão onde ocorre a maioria da situações), o longa-metragem esboça um suspense claudicante no formato e certa inverossimilhança em seu conteúdo em razão do tipo de narrativa equivocada que Feig imprime à trama e às performances razoáveis do trio central de protagonistas.

Blake Lively (Lanterna Verde), Anna Kendrik (Crepúsculo) e Henry Golding (estreante no cinema) atuam como se estivessem à vontade no filme, mas na verdade entregam um estilo frágil de interpretação, impulsionando uma falta de credibilidade em Um pequeno favor que bate na tela de forma gritante. Atores que podem render mais em produções futuras.

O tom farsesco da trama vai crescendo paulatinamente com o jogo de interesse e vilipêndio que um personagem com seu caráter distorcido tece na narrativa. A motivação central na obra é financeira e gera um triângulo amoroso sem empatia.

Acontece que, na empreitada, a antagonista que se mostra aparentemente frágil e seduzida pela sua personalidade selvagem e, ainda, pelo luxo que contempla, se revela uma boa investigadora e igualmente hábil em lidar com a situação, movida por sentimentos de justiça, autopreservação e lealdade que camuflam ideias rasteiras de inveja, cobiça e passionalidade pelo universo alheio que esconde em sua psique.

Semelhante ao insosso e decepcionante A garota no trem, de 2016, com Emily Blunt, esta nova produção se vale da mesma fórmula de abordagem fílmica, com pistas falsas para o espectador refletir. Seu clímax conota um resultado, igualmente, menor que se esperava e poderia render, provocando mais tédio que surpresas. 

Com reviravoltas forçadas demais, Um pequeno favor se revela uma narrativa policial desinteressante e que aborda de forma rocambolesca um microcosmo de uma elite sofisticada que ao sinal de um revés procura meios escusos para manter as aparências. Entretenimento razoável.

P.S.: Produção de gênero similar, Garotas selvagens, de 1998, com nomes como Neve Campbell e Matt Dillon em seu elenco, conseguiu um resultado mais vibrante.


Márcio Malheiros França

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Crítica: Hotel Artemis

Resignação como fator de resiliência





Hotel Artemis (EUA, 2018), dirigido por Drew Pearce (estreante na função), investe na adrenalina e profusão de personagens sem caráter, ao abordar uma Los Angeles futurista e distópica (a ação se passa em 2028), onde uma revolução civil ocasionada pelo racionamento de água gera o caos.

Jodie Foster (oscarizada por O silêncio dos inocentes) interpreta uma dedicada enfermeira de um hospital clandestino para foras da lei com um trauma em seu passado - a ausência precoce de seu filho - que coordena o local com rigor, quando em uma noite incomum as coisas saem fora do controle.

A obra conta com atores que passam credibilidade à trama, com destaque para Jodie Foster, Sterling K. Brown (O predador), que interpreta com vigor um personagem central e a franco-argelina Sofia Boutella (Atômica), em uma composição lasciva, sedutora e letal, são expoentes em Hotel Artemis que possui bons diálogos e se revela um thriller policial de ficção científica.

Com excessão de Jean Thomas/Foster e Morgan/Jenny Slate (Alvin e os esquilos 3) que vive uma agente de segurança, todos os demais personagens são pecadores inveterados, que entopem Hotel Artemis de perfídia. Há no longa-metragem um tormento e desordem dentro do hotel gerado pela chegada do mafioso mais temido interpretado por Jeff Goldblum (Jurassic Park) e outra hecatombe lá fora, na cidade.

Tenso, vibrante, intenso Hotel Artemis peca ao não trabalhar com suas idiossincrasias fílmicas e ao deixar pontas soltas, por ter muito material cênico no roteiro (também de Drew Pearce) e uma curta duração o que impossibilita a narrativa de ser linear, definida.

Mesmo o mote não sendo de fato original - o hospital para criminosos já foi levado às telonas nas obras-primas John Wick, com Keanu Reeves - se torna um fator atraente de muita dramaticidade, evidenciando um filme aceitável de estreia na direção.

Jean Thomas é uma mulher resignada e conformada com sua rotina. Moradora do local ouve músicas antigas em um toca-discos de tempos em que era jovem e feliz. Zelosa e responsável ao extremo, vive décadas de reclusão e resiliência. Conta apenas com seu leal auxiliar, Everest/Dave Batista (Guardiões da Galáxia), como amigo e descobre tardiamente que foi enganada e usada e mesmo após seus piores instintos aflorarem, mantém a dignidade. Uma personagem que parou no tempo. Relevante fragmento de uma humanidade em convulsão.

Márcio Malheiros França

sábado, 22 de setembro de 2018

Crítica: O protetor 2

Caráter ambíguo


O protetor 2 (EUA, 2018), dirigido por Antoine Fuqua em nova parceria com Denzel Washington iniciada em Dia de treinamento de 2001, trabalha com a trajetória de um matador (interpretado com introspecção por Denzel) extremamente implacável quando pressente o cheiro amargo da injustiça seja com seus amigos ou mesmo com desconhecidos.
Continuação do original de 2014 (também de Fuqua), o longa-metragem se apresenta em uma embalagem mais requintada; com um roteiro mais trabalhado; uma narrativa mais definida; uma trama mais densa, além de um visual mais caprichado e se afirma como uma franquia de sucesso.
Robert McCall/Denzel vira motorista de táxi que, como no filme anterior, não se conforma com os desvios de conduta de quem erra. Como um Sansão moderno e se valendo de sua habilidade como agente aposentado da CIA, sai em busca de vingança contra o destino dos seus e não somente.
Ambas películas bebem na fonte de O profissional de Luc Besson de 1994 (principalmente o primeiro) e esta nova produção adquire uma narrativa mais sóbria, com contornos sombrios e, ainda, com semelhanças com o gênero espionagem (filmes como as séries 007 A identidade Bourne).
A produção trabalha bem com o psicológico de seu personagem principal devido à boa atuação de Denzel e coloca em destaque um homem metódico, confiante e determinado, com uma cicatriz incurável de seu passado – a ausência de sua esposa - e a firme condução de Fuqua. O protetor 2 dosa com eficácia cenas de ação incessante, com o drama pessoal de alguns de seus personagens coadjuvantes e secundários.

O título original The equalizer (algo como O equalizador) sinaliza uma conotação da mitologia grega do herói, onde o personagem possui seu traço pessoal - aqui Robert McCall visualiza e antecipa a ação que pretende imprimir em no máximo 30 segundos, partindo da defesa para anulação de seus oponentes com os objetos destes próprios -. Teoria da resiliência que O protetor e a excelente franquia John Wick, com Keanu Reeves exacerbam, onde o conceito explicita que algumas personas, que sequer se imagina, possuem tal dom. 
Correto, intenso, vibrante O protetor 2 define um anti-herói tarimbado e com alta dose de sabedoria das nuances da existência, além do faro aguçado para as causas sociais, mesmo que utilize meios nada ortodoxos para as empreitadas. Um personagem ambíguo. Um justiceiro contemporâneo humano, demasiadamente humano.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 1 de maio de 2018

Crítica: Estrelas de cinema nunca morrem

Excesso de vaidade




Estrelas de cinema nunca morrem (Reino unido, 2017), dirigido por Paul McGuigan (Heróis), trabalha com a biografia da estrela de cinema Gloria Grahame (papel da vigorosa Annette Bening), atriz de Hollywood nas décadas de 1940 e 1950. E aborda um período específico de seu vivência: O seu relacionamento com um rapaz mais novo - iniciado em 1979 - interpretado por Jamie Bell (Ninfomaníaca), já tendo conhecimento de um câncer de mama, presumido ultrapassado. Acontece que o tumor ressurge em 1981, sendo fato gerador de várias mazelas perpassadas pela protagonista.

Baseado no livro de memórias de seu par neste período, Peter Turner/Jamie Bell, também ator, o longa-metragem aborda com certa eficácia narrativa a fase, talvez, mais difícil da personagem que extrovertida e elegante como qualquer personalidade do mundo do cinema e não apenas, evita aprofundar o tratamento completo que inclui a radioterapia que realizou, como também a quimioterapia que por demasiado zelo por sua aparência deixa de cumprir, pensando na sua agora tímida carreira profissional e na sua beleza física.

Annete Bening (Beleza americana) empresta charme e dignidade na composição de uma atriz lacônica sobre sua vida pessoal e que faz a opção por um novo romance e um modo de viver abundante em diversão como ponto de fuga para seus dilemas e encontra na companhia de Turner o par perfeito para dar prosseguimento nessa empreitada.

Nostálgico, correto, simétrico Estrelas de cinema nunca morrem é uma película sobre uma trajetória de vida, ainda que os fatos se passem em três anos, há no roteiro diálogos sobre momentos vivenciados pela personagem em questão tanto de reminiscências da carreira (a dupla chega assistir a um filme antigo de Gloria no cinema) quanto os relativos às relações amorosas, sempre em tom equilibrado.

Paul McGuigan imprime à trama de Estrelas de cinema nunca morrem um pujante estilo nos planos e enquadramentos extraindo certa beleza plástica na abordagem do amor verdadeiro e improvável da dupla central. Paradoxo à regra da fugacidade amorosa no mundo artístico de outrora e contemporâneo. O filme evita o dramalhão, mesmo em seu clímax, preferindo um tom mais ameno em seus momentos mais críticos.

Jamie Bell interpreta um jovem bissexual apaixonado, possessivo e zeloso pela estrela do passado que devido à pouca idade e gentileza demais ao teimar em satisfazer os seus desejos, acaba sendo negligente para com sua amante mais pela inexperiência e por não saber como lidar com a doença em estado avançado da protagonista, agravando um quadro que necessitava de urgência.

Sóbrio, lacrimogêneo, atraente, a obra se assemelha com Florence - Quem é essa mulher?, filme também britânico de Stephen Freas em sua temática inusitada e pela mensagem de companheirismo que transmitem em suas idiossincrasias fílmicas com seus casais de idades díspares, contudo, semelhantes em lealdade, compromisso, afetividade. 

Como um belo pássaro ferido que voa ao sabor do vento e do clima sem preocupações, a personagem principal evita encarar a face da realidade que se expõe por um exacerbado sentimento de vaidade em sua psique e de forma reservada e narcisística deixa de lutar pela sua própria existência. O filme é uma alegoria sobre os caprichos do homo sapiens, sobre decisões erradas que, às vezes, se toma e que conduzem à caminhos sinuosos e inexoráveis.

Márcio Malheiros França 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Crítica: A garota dinamarquesa

A negação da existência



A garota dinamarquesa (EUA, Reino Unido, Alemanha, 2015), produzido e dirigido por Tom Hooper (O discurso do rei), trabalha com a história real do primeiro caso conhecido de transgeneralidade masculina (papel de Eddie Redmayne, oscarizado por A teoria de tudo). A belíssima Alicia Vikander (O agente da U.N.C.L.E.) interpreta sua esposa, ganhadora do prêmio de melhor atriz coadjuvante no Globo de ouro por este papel.

Eddie Redmayne/Einar Wegener é um pintor de sucesso casado com Alicia Vikander/Gerda Wekener, uma pintora em busca de um estilo, que vivem um casamento dos sonhos para os românticos de plantão. Ambientado nos anos 1930, o casal se mostra extremamente apaixonado em sua relação. Gerda é mais atirada, mais arrojada, enquanto Einar se apresenta mais retraído, tímido. Não precisam de muitos fotogramas para ficar notório que Gerda, mais passional, domina a relação, até que, por desvio do destino, tem a infeliz ideia de colocar Einar como modelo feminino de suas obras e, ainda, criar uma falsa identidade para seu marido, ao travesti-lo e ensinar-lhe trejeitos femininos, estabelecendo assim uma personalidade sexualmente oposta para seu par, de nome Lili Elbe. Possibilidade conturbada para a época em questão.

Roteirizado por Lucinda Coxon e inspirado no livro de David Ebershoff, o longa-metragem se ancora na idiossincrasia do amor pleno e suas dolorosas vicissitudes, em uma matrimônio ideal que de tão funcional sucumbe pela sua própria razão de ser. Gerda acende (de forma involuntária e inadvertida) em Einar algo que estava esquecido em sua psique, aquilo que estava adormecido em sua essência: a sua predileção em ser passivo em suas relações afetivas (algo que, de certa forma, já acontecia em seu matrimônio com Gerda), em se relacionar de forma homossexual, em tornar-se uma pessoa do sexo oposto ao seu.

Protetora, fiel, amorosa, a personagem de Vikander não se dá conta a tempo do erro que comete ao, por descuido, colaborar para a transformação de seu esposo. Apaixonada em excesso, começa, paulatinamente, a perder Einar como ser másculo, e se vê na obrigação sentimental, motivada pela sua boa índole afetiva (mas também pelo remorso corrosivo), em ajudar seu amado a se encontrar, a dar vazão a seus desejos reprimidos na infância.

Poético, lacrimogênio, sensível, A garota dinamarquesa  busca em sua argamassa o psicológico de seus atores. Einar e Gerda são duas personalidades bastante atraentes em seus íntimos. Com a intensidade elevada ao cubo, os protagonista passam por um carrossel de emoções, por um labirinto de situações incomuns e desnecessárias, até encontrarem uma saída que se configura trágica.

O longa-metragem ganha muito com a escolha acertada de seus atores principais. Eddie Redmayne compõe Einar/Lili com sutileza, com sensibilidade rara e Alicia Vikander interpreta Gerda com emoção genuína, com a bravura de uma mulher que precisa reparar uma insensatez, mesmo sabendo que precisa abdicar de seu sonho doméstico. A atuação introspectiva de Einar se encaixa bem com a extroversão de Gerda. A garota dinamarquesa se torna uma clássico instantâneo, uma obra-prima irretocável muito em função das magistrais interpretações de seus astros, em especial da moça.

Envolvente, tocante, sóbrio, A garota dinamarquesa possui uma direção acertada de Tom Hooper que filma com maestria ângulos e enquadramentos, com uma narrativa definida e diálogos inspirados, além de uma excelente condução dos atores.

O filme trabalha com o inconformismo com a natureza, da rejeição ao próprio corpo e, por conseguinte, com o desmanche de uma bela união, de algo já construído e que se supunha estabelecido, já que os "sintomas" de Einar afloram depois de 6 anos de um relacionamento baseado na confiança, lealdade, paixão.

A garota dinamarquesa é um quadro bonito e sofisticado com pinceladas amargas de resignação, sofrimento e a dificultosa aceitação da realidade. A obra reflete com fortes holofotes a negação da existência de um homem como ser viril, que prefere a tormenta em detrimento da calmaria, deixando para trás um bonito romance com sua alma-gêmea. Pressuposto ímpar no mundo contemporâneo. Relevante ícone de uma atualidade mais reflexiva e tolerante.

Márcio Malheiros França


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

CRÍTICA: No coração do mar


Homens de pouca fé






No coração do mar (EUA, 2015), dirigido e produzido por Ron Howard (Uma mente brilhante), se baseia no livro homônimo de Nathaniel Philbrick, cuja história verídica deu origem ao clássico de Herman Melville, Moby Dick, e trabalha com os limites de resistência física e psicológica que um grupo de pescadores/baleeiros são testados durante uma jornada no século XIX, em busca de fortuna extraída de óleo dos mamíferos marinhos (produto natural valioso na época em questão).

Ron Howard se notabilizou em sua carreira pelo requinte cênico e uma câmera que busca os melhores ângulos e enquadramentos. Contudo, o diretor se destaca pelo tom melodramático que carrega em diversas cenas de sua inconstante filmografia. Com este lacrimogênio No coração do mar, possui boas chances de disputar indicações como melhor diretor nas premiações tradicionais.

O longa-metragem possui como pano de fundo a origem da lendária baleia assassina Moby Dick. Porém, em meio aos eficientes efeitos visuais que tornam esta aventuresca narrativa um filme, também, de ação, há o drama de seus personagens principais e coadjuvantes. Benjamin Walker (Abraham Lincoln - caçador de vampiros), o comandante da embarcação e Chris "Thor" Hemsworth, seu primeiro imediato, são os protagonistas da trama, que conta no elenco com o excelente ator irlandês Blendan Gleeson (Na mira do chefe).

Contaminados pelo vírus traiçoeiro da ganância, os mocinhos levam seus comandados a uma busca insana por riqueza em um local habitado por numerosos exemplares do animal cobiçado. Mesmo avisados do risco da empreitada, se corrompem em sua psique pela possibilidade de enriquecimento que se avizinha e que termina afetando a vida de todos à bordo, deixando feridas emocionais incuráveis em seus raros sobreviventes, sem deixar cair no esquecimento as vítimas fatais.

Canibalismo; lealdade; antagonismo pessoal e de classe social entre os atores principais; a admissibilidade da culpa, trazendo à tona o remorso corrosivo e libertador visível em gestos de maior nobreza e, de forma notória, estampado em expressões faciais cerradas, culminando na indefectível confissão da verdade, em um tribunal tendencioso e, finalmente, a ética embalada pelo retorno da integridade moral de quem aprendeu uma boa lição são os ingredientes que preenchem uma obra forte, tocante, feérica.

Pujante, arrebatador, intenso No coração do mar alcança um bom resultado final e traça um bonito panorama de celebração da existência, se ancorando na índole desbravadora de seus navegantes ao narrar as mazelas de uma dupla de marinheiros que fraquejam em suas decisões enquanto líderes da nau, viajam por caminhos obscuros e sobrevivem por milagre divino. Heróis errantes de um mundo desconhecido. Homens de pouca fé.

Márcio Malheiros França

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Crítica: A pele de Vênus

Desejos que afloram





A pele de Vênus (França, Polônia, 2013), dirigido e roteirizado por Roman Polanski, trabalha com as artimanhas ardilosas e sensuais de uma mulher (Emmanuelle Seigner) sobre um escritor (papel de Mathieu Amalric), com os desejos ocultos de um homem sendo explorados com requintes de uma planejada e orquestrada vingança.

A trama de Polanski mostra Thomas/Amalric trabalhando em uma audição para a montagem de uma peça baseada na obra A Vênus de peles. A narrativa do longa-metragem se inicia ao final da noite, durante uma tempestade, já com os testes terminados. Surge, então, a figura feminina de Vanda/Seigner querendo uma chance para mostrar seu talento, mesmo estando atrasada. É o estopim para um dos melhores filmes do realizador.

Mordaz como Lua de fel, de 1992 e teatral como A morte e a donzela, de 1994, Polanski realiza em A pele de Vênus a síntese de sua valiosa filmografia, ao contemplar o jogo perverso de manipulação e erotismo entre Vanda e Thomas, no qual o poder de persuasão de Vanda fazem os desejos sexuais escondidos de Thomas aflorarem.

Vítima de abuso sexual na infância, a personagem de Amalric se revela um adulto intelectual. Contudo, este trauma permeia sua existência. Sua literatura revela esta condição, deixando-o vulnerável em situações laboriosas. Vanda se aproveita dessa fragilidade para expô-lo ao ridículo. Maliciosa e vingativa, a personagem de Seigner vai, paulatinamente, a cada diálogo, minando a resistência de confrontamento de Thomas, até a sua completa submissão.

O octagenário Polanski mostra vigor na direção da película, nos ângulos e enquadramentos de cada fotograma, no seu texto feérico e primoroso, no prólogo e no fechamento, na condução perfeita de seus atores e realiza uma obra-prima irretocável sobre o lado sombrio do psicológico da humanidade e a sua (nem sempre confiável) convicção sexual.

De forma puramente teatral, com dois atores em cena e filmado em tempo real, A pele de Vênus conta com as excelentes interpretações de Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric. A dupla alcança um entrosamento cênico ímpar. Tornando fácil um texto extremamente difícil.

Polanski realiza uma ode às formas físicas femininas (não por acaso se inspirou na Grécia antiga, na deusa da beleza Vênus) e concebe um filme minimalista, profundo, relevante sobre aquilo que está por trás das aparências, sobre o que esconde a psique humana quando surge a oportunidade de exteriorizar sentimentos reprimidos.

"Deus criou o homem e o castigou entregando a uma mulher", frase que fecha a trama e sinaliza algo em Polanski como uma visão de uma suposta supremacia da mulher sobre o homem. A pele de Vênus é, em sua essência, um tratado feminista.

Vívido, perspicaz, inteligente A pele de Vênus realça a condição do Homo sapiens em se tornar dominador ou dominado. Subversivo, o filme narra a queda moral de um homem de boa reputação que expõe seu íntimo e se revela para a mulher errada e em ocasião inapropriada e inoportuna.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Crítica: Voo 7500

Passageiros da agonia





Esta co-produção americana e japonesa de 2014 aborda (segundo a lenda nipônica) os espíritos renitentes que teimam em aceitar a sua não-existência, em deixar o plano terreno, ao enfocar o dilema de seus personagens centrais, passageiros de um Boeing, durante uma viagem entre Los Angeles e Tókio.

A direção segura de Takashi Shimizu (O grito) aposta no drama pessoal dos protagonistas, em uma narrativa definida e envolvente e no fator surpresa de seu clímax, ao narrar os descaminhos do destino interferindo na vida de várias pessoas, com motivações diferentes, mas interligadas quanto ao meio de transporte escolhido, seu local de pouso e infortúnio.

Após o colapso de um passageiro, e depois de uma escassez de oxigênio no avião durante uma turbulência, os demais integrantes da aeronave se tornam vítimas da perseguição sombria e nefasta do espírito do sujeito. Resolvem, então, investigar a razão de seus tormentos, ao analisarem os pertences exóticos do homem que trouxe má sorte para todos à bordo.

Voo 7500 possui ângulos e enquadramentos virtuosos captados pela câmera de Shimizu. O filme se destaca pela atmosfera sufocante de mistério e desconfiança que atordoa o elenco, e seu roteiro (de Craig Rosenberg) se assemelha aos episódios clássicos de Além da imaginação, a série, e em especial, o memorável À sua própria imagem, de 1963.

Claustrofóbico, assustador, desconcertante Voo 7500 é um eficiente exercício de suspense e terror, onde seus relevantes elementos espirituais originários da cultura japonesa (e universais) estão ajambrados de forma coerente e coesa.

É perceptível em Voo 7500 as idiossincrasias do gênero, predominante nas produções do país asiático, na maquiagem e no modo de ação das aparições do fantasma maligno. Sempre surgindo de forma sorrateira e dos lugares mais improváveis, a criatura vai caçando os tripulantes da aviação até seu desfecho surpreendente e revelador.

Voo 7500 é um painel elaborado, sufocante, amargo da continuação da vida após a passagem, ao trabalhar com espíritos que não reconhecem a sua própria desencarnação, que se apegam ao seu corpo material, ao vislumbrar as mazelas enfrentadas por personalidades heterogêneas, mas unidas na fatalidade, que embarcam em uma viagem rumo ao inesperado e ao desconhecido.

Márcio Malheiros França    

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Crítica: Sobrenatural: a origem

O lado sombrio do oculto



Sobrenatural: a origem (EUA, 2015)dirigido por Leigh Whannell (estreante na função), é a terceira produção da franquia (o original foi lançado em 2011) e conta no elenco com Dermot Mulroney (O amor pode dar certo). O filme trabalha com o lado sombrio do oculto, com um espírito sem luz causando transtornos para uma adolescente (interpretada por Stefanie Scott, de Sexo sem compromisso).

A personagem de Scott invoca, de forma acidental, um ser maligno ao tentar se conectar com sua finada mãe e acaba atraindo para si toda sorte de negativismo. Ao procurar uma bem-intencionada vidente aposentada (papel da veterana atriz Lin Shaye), encontra mais que ajuda, descobre uma provável solução para seu dilema.

O filme trabalha com a afirmação de uma vocação, ao desenvolver como trama paralela a relutância da experiente paranormal em ajudar a garota devido ao seu medo de voltar a lidar com esse dom, por sentir-se incapaz. Após diálogo com um velho conhecido (vivido por Steve Coulter), se enche de energia na empreitada altruísta para salvar uma pobre inocente de um final trágico. Personagem relevante que ganha destaque no decorrer da narrativa.

Sobrenatural: a origem possui problemas na montagem, e o roteiro (do próprio diretor, que atua em papel secundário) deixa uma ponta solta quanto ao fato da jovem ter suscitado, se por infortúnio ou não, algo já existente no prédio. Nada que impeça o êxito do filme como um eficaz e envolvente exercício de terror psicológico, onde as questões espirituais que são apresentadas se sobressaem às suas ligeiras imperfeições.

O longa-metragem desenvolve uma aceitável ótica sobre as trevas, sobre algo invisível (que somente alguns tem a necessária sensibilidade para conseguir lidar). Sobrenatural: a origem se ampara na eterna luta entre o bem e o mal, na luta dos dois polos conflitantes de cunho religioso que caminham em paralelo com a história da humanidade, desde sempre.

Denso, soturno, assustador, com pinceladas de descontração, Sobrenatural: a origem é um painel lúgubre e elaborado do desconhecido, das obscuridades que a ciência menospreza. A película aborda a dicotomia maniqueísta encontrada no além, ao narrar a via-crúcis de uma moça que necessita também da colaboração providencial de um anjo de luz (sua mãe) para preservar sua existência.

Márcio Malheiros França

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Crítica: Sentimentos que curam


Aceitação de um diagnóstico







Sentimentos que curam (EUA, 2014), roteirizado, produzido e dirigido por Maya Forbes (escritora estreando como cineasta), é um projeto autobiográfico da autora e trabalha com a aceitação e conformismo de um grave diagnóstico maníaco-depressivo/transtorno bipolar (doença psiquiátrica sem cura, amenizada pelo uso contínuo de remédios específicos) que a personagem de Mark "Hulk" Ruffalo (em atuação primorosa, a mais importante de sua carreira) precisa aprender a administrar no âmbito do seu lar.

Sem ajuda de quase ninguém, apoiado com reservas por uma esposa desencantada e ambiciosa (Zoë Saldaña, de Guardiões da galáxia), Cameron/Ruffalo conta apenas com o amor incondicional de suas duas pequenas (interpretadas por uma dupla de espontâneas atrizes-mirins), que se sentem mais amparadas em suas relações afetivas com o patriarca vivido por Ruffalo (mesmo com suas evidentes limitações), que com a insossa emocionalmente personagem materna de Saldaña.

O longa-metragem não procura aprofundar os sentimentos de Cameron. A câmera de Forbes busca um tom mais suave na composição de extrema euforia, intercalado por breves momentos de depressão, de seu protagonista principal. O filme evita esbarrar no melodrama, não expondo os atores a sentimentos de pieguice - não que isto seja completamente ruim -, e sim, transformando a relação caseira em aceitação tácita da realidade entre seus membros (ainda que no início a inconveniência social de Cameron cause irritação nas meninas), em nome do amor latente do trio.

Sentimentos que curam é um drama lacrimogênio, tocante, intenso sobre um homem em estado de permanente sofrimento e dependência medicamentosa, que busca na criação solitária de suas herdeiras um motivo para viver, para tentar estabelecer uma rotina saudável, e a possível estabilização de seus sintomas.

"O bom do papai é que ele sempre está presente" diz a personagem de Saldaña reproduzindo o que a primogênita do casal havia dito anteriormente. Frase síntese da personalidade do protagonista, que se doa e se completa na árdua missão de cuidar não apenas de si mesmo, como das suas crianças. Relevante fragmento de uma humanidade cada vez menos afeita a generosidades deste tipo.

Sentimentos que curam desmistifica a imagem do doente psiquiátrico que tenderia a ser um psicopata social, que as estatísticas dos tribunais sequer confirmam, ao vislumbrar Cameron como um personagem dedicado ao respeito e carinho à sua causa de âmbito doméstico.

A obra é um belo retrato de uma relação arraigada no emocional de um progenitor e suas crias. Um retrato sensível, comovente, exemplar de união no seio familiar, de busca de uma identidade funcional e cotidiana, ao narrar o périplo de um homem que se espelha em suas filhas e enxerga a merecida reciprocidade.


Márcio Malheiros França


domingo, 26 de julho de 2015

Crítica: A forca

Fantasmas do passado



A forca (EUA, 2015), dirigido pela dupla Travis Cluff e Chris Lofing (também roteiristas da obra), aborda a insistência juvenil em buscar desafios, em ir além de seus limites ao narrar uma trama eficiente sobre uma duvidosa e arriscada encenação da mesma peça de teatro no (igualmente) mesmo palco onde 20 anos antes ocorreu uma tragédia.

Os ensaios são realizados pelos protagonistas principais e coadjuvantes (atores em início de carreira) do longa-metragem. Colegas de colégio, os jovens se relacionam bem, até que, motivados por um argumento raso, alguns deles (e ainda outra protagonista, que surge por acaso) resolvem depredar o cenário da montagem, desembocando em uma noite de horrores para todos, em nome de uma vingança do além.

Com uma estrutura fílmica semelhante à de Rec (a visão do espectador é obtida pelas imagens de câmera manual, pertencente ao personagem mais eufórico da película), A forca guarda em sua essência cênica uma semelhança com a franquia Atividade paranormal (ambos da produtora Blumhouse) e sua interpretação com a qual lida com o oculto, com o sobrenatural, no mais, a mesma fórmula de sempre, vista em diversas produções similares.

Mesmo sem originalidade, tanto em conteúdo, quanto em formato, a película atinge um nível satisfatório de claustrofobia e arrepios, conquistando seu objetivo de agradar os aficcionados pelo gênero terror, com seu terço final e clímax eficazes em sua proposta.

Hermético, asfixiante, enigmático A forca é uma produção B funcional e trabalha com o ressurgimento de velhos fantasmas do passado, com o despertar de algo sombrio, que um grupo de incautos e jovens adolescentes reacende (de forma inconsciente e sem uma análise prévia de suas consequências) ao dar vazão a seus impulsos e ao empreenderem um projeto em local impróprio e amaldiçoado.


Márcio Malheiros França

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Crítica: Cidades de papel

Adeus às ilusões



Cidades de papel (EUA, 2015), dirigido por Jake Schreier (Frank e o robô), trabalha com o universo adolescente. Sua câmera capta as expectativas amorosas de três amigos nerds, que passaram a vida escolar juntos. O mote é a paixão platônica da personagem de Nat Wolff (A culpa é das estrelas, também baseado na literatura de John Green) por Margo Spiegelman (interpretada por Cara Delevingne, de Anna Karenina).

Retraído, solitário, sonhador, Quentin Jacobsen/Nat Wolff nutre uma admiração inabalável, desde a sua infância, por sua vizinha e colega de escola Margo Spiegelman. Após uma noite de aventuras com esta - na qual comete pequenos desvios de conduta, em nome de uma vingança tola -, a moça foge da cidade deixando algumas pistas de seu destino. Motivado por uma presumida suposição na qual a personagem estaria à sua espera, investiga e parte com seus amigos e suas respectivas namoradas em busca de um desejado romance.

Com ótimos diálogos, a sentida espontaneidade de seus impúberes atores, com uma narrativa definida, algum humor, o drama de Schreier aparenta, por vezes, ser um road-movie e possui narração em off em seu prefácio e clímax e, finalmente, se revela uma pequena obra-prima existencialista e agridoce sobre uma tocante forma de amor.

A película aborda também a desconstrução de um imaginário. O tímido protagonista de Wolff guarda uma bonita impressão pueril de Margo, e (à sua maneira) coloca-a em um pedestal, como uma deusa de carne e osso, justamente por ser o seu oposto. Aventureira e inconsequente, a personagem desperta no rapaz aquele sentir bem.

Cidades de papel (que literalmente significa lugares inexistentes no mapa cartográfico) é uma obra inteligente, mordaz, vívida sobre a perda de uma bela ilusão romântica, da inocência e é um amargo retrato da passagem para a vida adulta, para o despertar para a realidade.

Cidades de papel explora bem o psicológico de seus personagens ao abordar uma trama verossímil, comovente, sensível sobre um rapaz que empreende uma jornada rumo à sua maturidade, deixando para trás nobres e sinceros sentimentos em sua psique que lhe davam satisfação, que o atraíam e o sustentavam.

Márcio Malheiros França