segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Crítica: Rainhas do crime

Onde os fracos não têm vez



Rainhas do crime (EUA, 2019), escrito por Andrea Berloff em seu primeiro trabalho atrás das câmeras, versa sobre a origem, formação e consolidação no submundo marginal de um trio de personagens femininas e os fatores que cada uma possui como álibi emocional e motivacional ao metamorfosear e fortalecer, ainda que por meio desviante, suas psiques.

Kathy Brennan/Melissa MacCarthy (As bem-armadas), Ruby O'Carroll/Tiffany Haddish (Operação supletivo - Agora vai!) e Clare Walsh/Elisabeth Moss (Cadê os Morgan?) são esposas e donas de casa submissas de maridos integrantes da máfia irlando-americana.

Vizinhas, amigas e unidas na forma de opressão com graus diferentes de intensidade, as protagonistas se vêem, de forma repentina, com o mesmo dilema financeiro e perversa exclusão do mercado de trabalho escasso e seletivo exponenciada em Kathy Brennan.

Como a reviravolta do roteiro revela no clímax, uma das coprotagonistas resolve subversivamente e de forma planejada e metódica alçar o trio principal no arrojamento de suas psiques ao se inserirem nos negócios ilícitos da organização que possui em seu modus operandi a intimidatória arrecadação financeira de comerciantes e empresários da região com a vista grossa das autoridades locais.

Idiossincrasia fílmica que explicita e exterioriza aquilo que a personagem sempre desejou - com a complacência e cumplicidade de sua mãe e de um agente da lei corrupto - e que paulatinamente vai se desenvolvendo, solidificando e convergindo para o ilegal que satisfaz sua personalidade rancorosa mas que exacerba o risco que suas ações carregam.

Acontece que essa transformação, antes improvável, estava intrinsecamente escondida no psicológico de todas e a prisão de seus maridos Jimmy Brennan/Bryan D'Arcy James (O primeiro homem), Rob Walsh/Jeremy Bobb (A entrega) e Kevin O'Carroll/James Badge Dale (A perseguição) é elo que faltava para o começo da ruptura e encorajamento daquilo que estava sempre ali e a ocasião somente fez despertar e agigantar.

Filme de época e magistralmente dirigido e interpretado, Rainhas do crime é um tratado sobre a exclusão e o preconceito racial que desemboca em contestação e antagonismo vingativo. O filme de tons ácidos e extremamente violento em forma e conteúdo se revela um retrato amargo da luta pela sobrevivência em ambiente tóxico e degradado onde impera a lei do mais forte.

Herdeiro em sua premissa e formato ao gênero blaxploitation que marcou época na década setentista em obras como Shaft, de 1971, com Richard Roundtree que além de duas sequências em 1972 e 1973 teve uma versão homônima em 2000, com Samuel L. Jackson que retornará ao personagem no filme que está saindo do forno e Foxy Brown, de 1974, com Pam Grier que Quentin Tarantino refilmou em Jackie Brown em 1997 com a mesma atriz.

Excetuando o casal de filhos de Kathy Brennan e um correto funcionário do FBI, ninguém em Rainhas do crime é incauto pecador. O diretor conseguiu um resultado crível e verossímil do clima barra-pesada e de caustrofóbico sufocamento da liberdade no retratado bairro de Nova York.

Rainhas do crime exibe uma Nova York de outrora onde a convivência difícil revela que as organizações das comunidades irlando-americanas e ítalo-americanas que ali se estabeleceram, controlavam seus respectivos territórios e comandavam todas as movimentações empresariais, imobiliárias e comerciais com o pretexto da suposta proteção sob coação e ameaça.

Rainhas do crime explicita por vias tortas e nebulosas o poder de superação de seus elementos seja em uma protagonista sempre humilhada com pancadas e assediada sexualmente passando pela mãe de um casal pequeno de filhos sem perspectivas de emprego e resignada com a vivência conflituosa com os parentes até a personagem que faz a trama mover com seu ressentimento, amargura e desejo de revanche pelo preconceito que sofre a vida inteira seja no país, seja entre os integrantes da família exponenciado na estupidez e prepotência de sua sogra e mesmo em seu casamento.

Autêntico, genuíno, intrigante Rainhas do crime se revela excelente thriller policial de nuances escatológicas e dramaticidade plausíveis. Realista em estado bruto, a obra reverbera a mutação dicotômica do psicológico de suas protagonistas, em especial de Clare Walsh.

Passiva ao extremo em sua relação com o marido e mesmo fora do casamento, a personagem sofre um abuso sexual de um morador usuário de entorpecentes que facilita a ruptura de sua psique antes pacífica para o destemor.

É a protagonista na qual a vocação para o mal se consolida de forma mais agressiva. Letal e arrojada, a personagem de Elisabeth Moss é a síntese da obra e demonstra a essência humana quando há possibilidade real, determinação ocasional e ambiente favorável para verbalizar e deixar vir à tona algo que estava submerso no inconsciente de seu psicológico. Em Clare Walsh ocorre a mudança comportamental da água para o vinho.

Rainhas do crime se preocupa com acerto em justificar a origem do processo revelada na essência da personalidade de cada uma das coprotagonistas e suas ações paradoxais e incomuns que refletem em previsível conflito severo entre os seus e o grupo rival.

Há no longa-metragem uma cena da Broadway na Times Square onde Ruby O'Carroll atravessa a movimentada rua tendo como pano de fundo diversos cinemas, teatros e casas de shows eróticos e de prostituição que afirma junto com seu acertado figurino de outrora (inclusive no corte de cabelo e nos imensos óculos) uma reminiscência pessoal de uma Nova York em ebulição e que ficou no imaginário afetivo de uma geração.

Intenso e vibrante em sua narrativa ágil e com ótimos diálogos, Rainhas do crime é um tratado sobre como o meio ambiente influencia e forja o caráter do Homo sapiens e revela o caminho tortuoso, perigoso e sem retorno que suas intérpretes trilham sem exitar.

O longa-metragem é um painel amargo de uma viagem com passagem somente de ida empreendida por personagens sofridas e desiludidas que optam por trocar a relativa calmaria pela nunca apreciável tormenta.

Márcio Malheiros França

domingo, 11 de agosto de 2019

Crítica: O professor substituto

Psiques precocemente amargas e cáusticas




O professor substituto (França, 2018), roteirizado e dirigido por Sébastien Marnier (Irrepreensível), versa sobre a união e arrogância de meia-dúzia de alunos superdotados em seus intelectos de uma classe de elite de uma renomada escola primária em uma cidade da França e seu estranho e bizarro modus vivendi e concepção sombria de evidente negação de suas existências refletidos em gritante falta de empatia e carisma entre os seus.

Azedos como a bílis produzida pela vesícula e exalando antagonismo que gera antagonismo, os coprotagonistas juvenis liderados por Apolinne/Luàna Bajrami (Feliz aniversário) e Dimitri/Victor Bonnel (estreante nas telonas) possuem um assustador e tétrico gosto por catástrofes naturais ou criminosas e um repugnante e lúgubre vislumbramento pela necrofilia e tortura humana e animal.

Fechados em um casulo como uma seita macabra e ideologizados politicamente com evidente visão prosaica da humanidade refletida na maneira incomum de conduzir sua rotina, o grupo apresenta interesse nefasto pelo inusitado e o escatológico e se esforça além do suportável física e emocionalmente para alcançar um estado psicológico de gritante impassividade com notória ausência dos sentimentos de medo e dor.

O professor substituto possui uma inclinação para o desconhecido em sua narrativa melancólica que explora imagens que revelam o apego ao trágico de seus elementos impúberes que afetam as suas respectivas psiques, o cotidiano estudantil e seus próprios professores.

Assim como a onda sufocante de crescente calor, o longa-metragem apresenta sucessivas e angustiantes situações com inclinações degradantes de seus protagonistas principais e coadjuvantes que apresentam algo incomum de latente inclinação para o lado obscuro e anormal em suas personalidades exóticas.

O longa-metragem de tonalidades intensamente dramáticas possui idiossincrasia experimental que exprime sua fuga da mesmice e dos padrões cênicos usuais com sua verve sombria de desencanto e desesperança de vários de seus intérpretes que apresentam tendências negativas de autodestruição e alguma imolação em seus psicológicos precocemente espatifados.

Pierre Hoffman/Laurent Laffitte (Elle) o professor que substitui o titular que optou pela tentativa de suicídio precisa sair de sua zona de conforto de sua profissão para ser o ponto de equilíbrio e um luminoso farol de sensatez em um ambiente nocivo e desesperador de protagonistas desregrados e descontrolados.

Há cenas em O professor substituto de puro suspense como as luzes que apagam na residência do protagonista e a aparição fantasmagórica dos líderes do grupo, Apolline e Dimitri, durante à noite, na penumbra do monitor, quando o personagem começa a substituir a razão psicológica pela disfunção em sua personalidade

Comportamento explicitado na sua obsessão pelas cenas fortes e impactantes contidas nos Dvd's dos estudantes que assiste à exaustão e no comportamento algo agressivo no âmbito escolar oposto à sua verdadeira essência.

As misteriosas ligações telefônicas que prefere atender com sons estranhos e o clima excessivamente quente em noites insones minam paulatinamente seu equilíbrio emocional e acentuam seu estado de espírito desequilibrado em função do estranho comportamento de seus alunos.

Assemelhada com A família Adams, a trupe juvenil e seu modo hermético de convivência, como em uma sociedade secreta, de encarar o mundo representa o negativismo em estado bruto das mazelas que o homem provoca na natureza e na falta de harmonia do planeta.

Essa força destrutiva de si próprios faz um paralelo com o possível e verossímil apocalipse provocado pela ganância famigerada por dinheiro e poder e encontra ressonância em diálogos ácidos e na composição de uma música algo tétrica, ainda que dançante, da turma e sua professora da disciplina.

Essa visão pessimista e de extremada ausência de perspectivas que Sébastien Manier joga na telona representa o colapso civilizatório que se traduz em latente e exponencial amargura de seus fotogramas e uma possível hecatombe da natureza tal como se conhece por fatores diversos que convergem para a mesma finalidade ruidosa e depreciativa.

O longa-metragem de origem francesa e do século XXI é o espelho de algumas obras fonográficas de sucesso do Rock tupiniquim oitentista. Tanto musicalmente explicitadas em suas icônicas letras como seus respectivos clipes de divulgação já expunham essa tendência com suas verves contestatórias e algo premonitórias nas faixas: Soldados, da banda brasiliense Legião Urbana, de 1985; Só o fim, da formação baiana Camisa de Vênus, de 1986 e Carta aos missionários, do conjunto carioca Uns e Outros, de 1989.

Provocador, intrigante, contestador O professor substituto aborda o declínio e a degradação da sociedade moderna e apresenta um líder do cenário mundial como uma peça-chave desta engrenagem.

Em completa redoma antissocial, os descontrolados e intrinsecamente rebeldes alunos da classe especial (há uma divisão na própria sala de aula) são um produto atípico e pavoroso da sociedade atual.

Ainda que seu membro mais frágil e visado recue do ato de completa insanidade no desfecho e navegando na contramão dos jovens da atualidade ao não fazerem uso da internet e sem supervisão dos seus progenitores e dos membros da escola, Apolinne e os demais transmitem cáustica arrogância em outrem que evidencia a fuga da obviedade e do comum no texto e na direção de Sébastien Manier.

Pierre de Laurent Laffitte é o elemento que vislumbra o desenrolar do processo de desequilíbrio mental e psicológico de seus alunos e demais integrantes do corpo docente e acadêmico da instituição. Sua psique sofre abalo com a perspectiva de implosão dos adolescentes com seus jogos de resistência e a plausível possibilidade de provocarem o caos com suas personalidades distorcidas e rochosas.

O personagem de Laurent Laffitte de tendência homossexual com atração por um colega de magistério e ex-amante de seu vizinho Steve/Gringe (Inocência roubada) surge como a peça que pretende repor a normalidade do mecanismo difuso no perverso sistema imposto pelos alunos.

Ainda que perca momentaneamente o seu próprio norte e flerte com o sentimento desprezível de prazer de chinelar baratas e notório desleixamento com a salubridade de sua residência, Pierre é a síntese e a antítese dos demais.

Pierre surge como salvador em situações de total catástrofe e, em dado momento, diante do inevitável e sem ter como resolver demonstra resignação com aparente cumplicidade, ao menos no conhecimento, no ato final de desmonte do sistema vigente perpetrado pelas mentes brilhantes entupidas de empáfia.

Sébastien Manier utiliza o recurso da pouca luminosidade para realçar o clima claustrofóbico de sua obra inclusive no clímax no castelo, logo após a cerimônia de formatura dos formandos, onde Pierre apenas com a lanterna de seu celular busca vestígios das crianças.

O professor substituto possui uma singularidade exemplar que inebriaga as emoções do espectador em sua narrativa ambígua e crua e sua ausência de linearidade fílmica evoca um interesse crescente pela cena seguinte, por algo que expresse o inabitual.

Imprevisível, subversivo, instigante O professor substituto aborda de forma incrivelmente original e crível coprotagonistas incomuns que revelam a sordidez da natureza humana quando há falta de controle sem resvalar no maniqueísmo habitual. Suas ações são movidas por angustiadas psiques e representam causa e efeito do ambiente opressor que os rodeia.

O professor substituto é um tratado sobre o apocalipse da Terra ocasionado por agentes tóxicos em sua estrutura antes harmoniosa em função da insensatez humana traduzida em valores e ganhos materiais e do colapso da racionalidade de seus elementos.

Um retrato sombrio da humanidade com intenso potencial de destruição ao seu redor que reflete em tentativa de suicídio coletivo como válvula de escape e perigosa animosidade entre os seus semelhantes.

O professor substituto é um oásis referencial de aberrações ímpares mesmo para o cinema francês ao narrar o cotidiano sombrio de personagens tanto exóticos quanto intrigantes e prolíficos em sentimentos e ações mórbidas. Alarmista e essencial, o filme resvala na distopia sem de fato nela se inserir.

Márcio Malheiros França

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Crítica: As rainhas da torcida

Psique resignada com a efemeridade da vida




As rainhas da torcida (EUA, 2019), dirigido por Zara Hayes (estreante na função), versa sobre a visão de mundo de pessoas da terceira idade; sobre o processo terapêutico que a amizade e união entre si tende a afetar positivamente o psicológico e a estima de suas personagens desta faixa etária e sobre um um modo agradável de superar um dilema de sua principal intérprete Martha/Diane Keaton (Linhas cruzadas).

O prefácio do longa-metragem apresenta a protagonista Martha em atividade em uma espécie de liquidação de garagem - algo comum nos Estado Unidos - ainda que resida em um apartamento e cancelando consultas médicas que dariam início ao seu tratamento de câncer de ovário que incluiria o processo quimioterápico e se muda para uma comunidade de idosos chamada Sun Springs.

Descrente de sua cura e conformada com sua condição, Martha encontrará no local a motivação necessária  para esquecer seu drama pessoal influenciada por suas animadas colegas por meio de conversas e amizades verdadeiras e, sobretudo, experimentar o prazer de se tornar animadora de torcida, algo não realizado e que estava adormecido em sua psique abatida e cansada de lutar.

Essa atividade representa aquilo que almejou um dia na adolescência e permaneceu irrealizado pelo descaminho do destino que traçou outra rota para sua existência. Martha vislumbra no novo ambiente a possibilidade de concretização de seu desejo oculto escondido em seu âmago por muito tempo.

As rainhas da torcida apresenta a amargura implícita de personagens vividas interpretadas por atrizes sem medo da exposição refletidas em personagens com pouca noção de algum constrangimento que suas atitudes poderiam suscitar em outrem.

As rainhas da torcida lida com o improvável que se exprime na cena protagonizada por Alice/Rhea Perlman (Reaprendendo a amar) na qual seu desejo interior pecaminoso se concretiza de forma veloz e surpreendente.

O longa-metragem de nuance discretamente melancólica e angustiante disfarçada de pensamentos e emoções de belo avivamento que realçam a vivacidade que suas protagonistas apresentam bate na tela de forma dicotômica entre a comicidade e a dramaticidade que revela o ônus da maturidade (expressada nos anos vivenciados) carregado em carência de afeto e sentimento mórbido do epílogo da vida expressado timidamente nas coisas que esqueceram pelo caminho que realçam a pequenez da existência humana.

O mote de As rainhas da torcida se assemelha à premissa do lacrimogêneo e atraente O amor pode dar certo, de 2007, com Amanda Peet e Dermot Mulroney em bonito romance mesmo com suas situações oncológicas avançadas. Martha de Diane Keaton procura uma forma de suavizar seu emocional na dança e no convívio humano como o casal jovem do longa-metragem equivalente se esforça para se equilibrar entre si.

Como na maioria de obras cinematográficas há em As rainhas da torcida o elemento antagônico presente nas animadoras de torcida estudantis, jovens e oficiais da comunidade que resistem ao inusitado fato das idosas formarem uma equipe igual. Como também há relutância à ideia da diretora da comunidade interpretada por Celia Weston (Um senhor estagiário), bem como no filho de uma integrante do grupo.

A dissidente desta turma, Chloe/Alisha Boe (estreante nas telonas) se interessa em treinar os passos e o condicionamento físico da trupe obstinada mesmo que, a princípio, à base de chantagem que desemboca no seu esforço de liderança e na afeição às veteranas após seu desencanto com a ausência de sinceridade e compartilhamento de emoções de suas colegas. Além do evidente exibicionismo das mesmas.

O romance tímido que surge no clímax - e que estava anunciado desde que se conheceram - entre os adolescentes Chloe e Ben/Charlie Tahan (O amor é estranho), neto de sua agora melhor amiga Sheryl/Jacki Weaver (Alma da festa), é o ponto de contração do ambiente conflitante entre a idade avançada da maioria de seus elementos principais e coadjuvantes com a jovialidade destes. O auge do ciclo biológico se contrapondo ao (quase) início do mesmo. O crepúsculo da existência em contraste com o despertar desta.

O interesse que o longa-metragem poderia despertar se esvai em situações com alguma obviedade narrativa e gritante ausência de arrojamento em suas nuances artísticas. Ainda que sua leveza e alegria cênicas evidentes camuflem o sentimento de dor e opressão presente no psicológico de seus elementos As rainhas da torcida se ressente de maior conteúdo em sua concepção fílmica.

O tom cômico com ranço dramático de As rainhas da torcida exacerba certa superficialidade em sua dramaturgia e pouca ousadia no formato. Mesmo com curta duração (91 minutos) e com alguma linearidade na direção, o longa-metragem se apresenta rotineiro e morno em seu resultado final ainda que trabalhe com o lúgubre sem resvalar na pieguice.

As rainhas da torcida é um retrato plausível e verossímil da velhice e da efemeridade da vida. O filme é recheado de amargura disfarçada de aparente contentamento que sufoca a depressão visível na psique de sua protagonista principal.

As rainhas da torcida possui uma singularidade existencial apreciável e verve edificante ao discursar sobre um modo de desistência da vida sem abdicar dos prazeres mundanos. Narra o epílogo desta existência e a casualidade da camuflagem da psique resignada e abalada ainda que musculosa de uma personagem em estado terminal.

Márcio Malheiros França 

domingo, 28 de julho de 2019

Crítica: As trapaceiras

Personalidades oportunistas e imperfeitas




As trapaceiras (EUA, 2019), dirigido pelo estreante no cinema Chris Addison, trabalha com o formato de sobrevivência apoiado em golpes financeiros sejam sofisticados sejam rasteiros praticados por suas intérpretes; versa sobre o domínio territorial ameaçado de sua coprotagonista em um balneário da Riviera Francesa recheado de turistas endinheirados e presas fáceis de Josephine/Anne Hathaway (O casamento de Rachel).

O mote de As trapaceiras revela o carisma e o poder de sedução que as mulheres possuem encarnados na figura sensual, sofisticada e culta de Josephine predominantes sobre a ingenuidade e generosidade masculina travestidas em poder aquisitivo.

Inteligente, bonita, poliglota, vez em quando conveniente vulgar a personagem revela uma habilidade incomum e nada exemplar em seu modus vivendi e representa o ideal perfeito de feminilidade a ser conquistada por senhores conquistadores compulsivos, afortunados e perdulários.

Antes de ser vítima da coprotagonista, a personagem Penny/Rebel Wilson (Missão madrinha de casamento) sem os devidos atributos e cultura (além de atuar sozinha) de Josephine apela para artimanhas mais simples baseadas em parentes imaginárias que disponibiliza em fotografias sentidamente opostas de sua própria estética física.

Penny com seu discurso decorado exibe no celular imagens de beldades sensuais desconhecidas para comover e sensibilizar emocionalmente homens incautos interessados em sexo ou simplesmente hipnotizados pelo sex apple evidente nos rostos e corpos expostos.

Com inclinação para o besteirol em estado bruto personificado na personagem rude, inculta e com tendência ninfomaníaca de Rebel Wilson, As trapaceiras se equilibra entre o humor recatado e o escrachado e com a notória dicotomia entre a razão e a emoção das personalidades opostas mas com o mesmo objetivo de suas protagonistas.

Com idiossincrasia fílmica subversiva e alguma inverossimilhança na narrativa - a personagem não entra no radar da Interpol e sequer fica visada em seu balneário -, As trapaceiras exala notória amoralidade e falta de ética de seus elementos que batem na tela com modesta originalidade e ausência gritante de melhor texto em algumas cenas lá pelo seu miolo.

O filme alcança seu apogeu no terço final com fotogramas hilariantes que enfocam o duelo de artifícios e técnicas até então infalíveis da dupla golpista que disputam a soberania da localização privilegiada e apostam um valor estipulado para quem conseguir lançar primeiro o anzol e jogar a isca para fisgar o próximo peixe.

As artimanhas das intérpretes são colocados em execução no alvo teoricamente fácil que aparece na figura de um desajeitado adolescente nerd e suposto milionário do ramo de informática interpretado por Alex Sharp (II) (debutante nas telonas).

Refilmagem do criativo Os safados, de 1988, com Steve Martin e Michael Caine, o longa-metragem se ancora na interpretação nada econômica no histrionismo de Rebel Wilson e na contida emocionalmente Anne Hathaway e sua maior inclinação para o drama mas funcional em obra cômica.

Insosso, mal-ajambrado, arrastado As trapaceiras não faz juízo de valor de seus elementos principais e desperta pouco interesse com sua claudicante concepção fílmica que evidencia clichês e lugares-comuns comprometedores como o abuso de sua personagem menos perspicaz que apresenta notória e cativante ingenuidade (mesmo para seu modus operandi) em cenas que evidenciam o uso inadequado e excessivo do grotesco.

A sua deficiência de concisão latente e estrondosa falta de originalidade explicitam algumas pontas soltas exponenciadas no curso intensivo de refinamento de Penny para finalidade alguma e sua verve cômica utilizada em situações constrangedoras explicitadas em performance de certa envergadura inadequada e estranha ao oferecer uma serventia com desconhecimento e de comportamento algo escatológico valoroso para alguns planos de Josephine.

Improvável em determinados momentos, o longa-metragem causa algum fastio em sua idiossincrasia contraditória e pouco inspirada e sentida ausência de criatividade.

O diretor resolveu utilizar cenas que poderiam ser deletadas da edição final exemplificadas no treinamento ofertado por Josephine para o aprimoramento de posturas da personagem de Rebel Wilson. Com o uso de um facão, Penny parece se ferir na mão e deixa Anne Hathaway em desespero quando o instrumento letal escapa de seu domínio. Seriam erros de gravação. Recurso contemporâneo e presente durante algum tempo nos créditos de quase todas as comédias de Hollywood.

De caçadora a caça de sua interlocutora, Penny de atitudes politicamente incorretas como Josephine se distancia desta em sua psique que de forma visível preserva algum romantismo e índole pueris e se mantém afastada da antagonista sob a ótica das garras da lei em suas tramoias amadoras e pouco elaboradas.

Injustificável sob todos o pontos de vista, os métodos usados pela personagem evidenciam uma forma errática e aguda de sobrevivência mesmo com seus mecanismos pouco danosos que espelham sua essência.

A premissa de conflito de interesses de objetivos em comum de As trapaceiras se assemelha ao atraente Noivas em guerra, de 2009, com a própria Anne Hathaway em dicotomia com Kate Hudson e, ainda, com o intenso Guerra é Guerra, de 20012, com Chris Pine e Tom Hardy em disputa testosterônica pelo amor de Reese Whiterspoon.

Há uma tendência na Hollywod atual em centralizar os principais papéis em protagonistas femininos desde a revisão de clássicos de maquiagem e salto alto como no hilariante Caça fantasmas, de 2016 e no desfrutável Oito mulheres e um segredo, de 2018 (também com Anne Hathaway) passando pela personagem de Tessa Thompson do insosso MIB: Homens de preto - Internacional aos destaques no elenco em obras recentes cuja verve narrativa evidencia psicopatia observadas no decepcionante Obsessão, de 2018 e no frágil Ma, de 2019.

Como um ímã de homens de meia-idade embasbacados por sua beleza física, Josephine acumula uma fortuna com seu jogo sorrateiro e fora-da-lei. Auxiliada por dois funcionários, encontrará em sua antagonista a nobre virtude da compaixão e o reconfortante sentimento de companheirismo que estavam distantes de sua psique impassível.

A dupla de oportunistas que protagoniza o longa-metragem carrega severa sinuosidade em seus psicológicos de formação imperfeita que cada uma a seu modo exibe pela atração e compulsão vorazes por algo de outrem, por aquilo que não lhes pertence.

Depois de intensa rivalidade, lutas homéricas e acabarem provando de seu próprio indigesto veneno surgirá a inesperada amizade e afeição entre as moças. Mesmo que por vias erradas e assim permanecer, as coprotagonistas em claro distanciamento social, cultural, psicológico e de aparência física se encontram e se reconhecem em suas respectivas ambições materiais e ideologias distorcidas.

Márcio Malheiros França

domingo, 21 de julho de 2019

Crítica: Maya

Andarilho de psique impassível e distanciada




Maya (Alemanha, França, 2018), escrito e dirigido por Mia Hansen-Love (Adeus, primeiro amor), trabalha com a visão etérea e mundana de um personagem viajante compulsivo interpretado por Roman Kolinka (Juliette); sobre as falsas expectativas amorosas que são deixadas no caminho de seu protagonista arredio aos laços e vínculos afetivos.

Mia Hansen-Love valoriza dramas intimistas e possui uma concepção plausível do universo adolescente e romântico de personagens femininas carregadas de sentimentos pueris e possessivos. A coprotagonista Maia/Aarshi Banerjee (estreante nas telonas) reflete essa indefectível característica.

Suas digitais são perceptíveis, ainda, de modo raso, na personagem Naomi/Judith Chemla (A vida de uma mulher). A personagem francesa é a namorada que Gabriel deixou antes de seguir em frente e ser sequestrado nos primórdios do conflito sírio ainda em vigor em seu arriscado trabalho como jornalista de guerra.

Em Maya a lente da diretora enfoca o comportamento desapegado e despojado de Gabriel/Roman Kolinka - em terceira colaboração com a cineasta depois de Eden e O que está por vir -. A câmera da cineasta protagoniza muito este personagem (o ator chega a ofertar poses de galã e modelo) e oferece menos exposição da jovem intérprete Aarshi Banerjee.

A indiana Aarshi Banerjee sente o peso do papel e compõe uma personagem que reflete o carisma de Gabriel. Inexperiente, sua performance surge claudicante e revela algum amadorismo em suas cenas originais para crescer como atriz assim como o despertar de sua paixão pelo protagonista.

Sem traços de sensualidade mesmo em suas vestimentas, Maya passa a desejar seu interlocutor e sofre uma metamorfose em sua essência inocente que desperta para o amor, para a sua escondida sexualidade e os subsequentes libidinosos desejos carnais que estavam escondidos em sua personalidade e saltam aos olhos com a presença do agora cobiçado objeto amoroso.

Há em Maya uma inclinação notória em colocar Gabriel como elemento condutor de emoções variadas nas pessoas (qualquer que seja) que surgem em sua trajetória. De personalidade forte e determinada, o personagem distribui inadvertidamente falsas expectativas sentimentais e forte expressão psicológica de vazio com sua inconstante presença e intensa mobilidade de destino.

Ainda assim, Maya provoca uma pequena catarse psicológica em sua rotina. A personagem consegue incutir um desejo de pertencimento nunca antes apreciado na psique impassível e distanciada de Gabriel. O protagonista em dado momento da relação se ressente da ausência física e aparente desprezo da mesma que provoca a sua inesperada iniciativa de reatamento.

Andarilho inveterado, Gabriel revela uma facilidade de adaptação em todos lugares por onde vá mas severa dificuldade em lá permanecer. Em formalizar uma união sólida. Quando o sinal de estabilidade amorosa se avizinha o personagem encontra em seu trabalho a ruptura e a válvula de escape do desenlace de seus próprios impulsos e emoções.

Sutil, delicado, sensível Maya aborda como pano de fundo a fronteira das causas política e de denúncia nas quais Gabriel se insere sem preocupação: os custos que o governo francês delega ao resgate de seus cidadãos sequestrados que seriam custeados pelos cofres recolhidos em impostos públicos em detrimento de ajuda humanitária e a especulação imobiliária em Goa na Índia onde as desapropriações seriam forçadas com recursos violentos e intimidatórios.

O longa-metragem possui alguma fluidez em sua narrativa dramática sobretudo à leveza da rotina e concepção de mundo de Gabriel. Assim como seu protagonista, Maya evidencia sua vocação dramática de natural superficialidade sem se aprofundar em suas questões levantadas em sua verve fílmica ainda que seu texto apresente bons diálogos.

A diretora concebeu uma obra que afirma certa incongruência em relação às suas passagens cronológicas. Sua imperfeição advém da sua decupagem, em vários momentos, acelerada demais e alguns cortes abruptos que, de forma notória, explicita alguns vazios não devidamente preenchidos com suas pontas soltas.

Maya de Mia Hansen-Love busca nas locações do bonito tour pela Índia alguns de seus pontos turísticos como suas atraentes praias e arquitetura milenar e nas interessantes paisagens urbanas de intenso movimento comercial, campestres e costeiras do país. Fotogramas atraentes que realçam o descompromisso com o tempo de seu elemento principal.

Maya destaca um estilo de comportamento arrojado e independente de ser de seu elemento principal evidenciado na escolha de não conhecer seus meio-irmãos ao visitar sua mãe Johana/Johanna ter Steege (Um canto de esperança) em Mumbai.

Ainda que a coprotagonista afete seu psicológico e este seja um personagem com algum conhecimento literário, Gabriel enxerga na situação o fator determinante para a recondução de suas peregrinações empíricas. Conduta espelho da verdadeira protagonista de seu psicológico.

Freelancer da imprensa, o protagonista concebe sua existência do mesmo modo que sua profissão. Um típico estrangeiro da vida. Destoante fragmento de uma humanidade mais afeita ao tribalismo regional.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 16 de julho de 2019

Crítica: Mulher solteira procura

Morando com o perigo




Mulher solteira procura (EUA, 1992), dirigido por Barbet Schroeder (O reverso da fortuna), trabalha com o ônus da necessidade financeira em custear as despesas de um apartamento que promove o encontro de suas jovens protagonistas principais Allison 'Allie' Jones/Bridget Fonda (Dr. Hollywood - Uma receita de amor), a locatária, com Hedra 'Hedy' Carlson/Jennifer Jason Leigh (Cortina de fogo), a sublocatária.

Barbet Schroeder se vale de um texto escrito à seis mãos para tecer uma narrativa que paulatinamente vai expondo a verve psicótica de Hedy em uma embalagem de crescente atmosfera sombria, sufocante claustrofobia e suspense psicológico. A produção é um eficaz exercício de terror implícito para no terço final escancarar sua verdadeira vocação de terror explícito e violência em estado bruto provocada pela sua personagem-psiquiátrica.

A premissa de Mulher solteira procura evidencia o carisma e a personalidade forte de Hedy em contraponto à fragilidade emocional presente na psique de Allie exponenciadas na procura do vizinho amigo e homossexual Graham Knox/Peter Friedman para passar a noite depois da desilusão com seu romance e no sentimento de culpa depois de sofrer assédio no ambiente de trabalho.

A personagem de Jennifer Jason Leigh encontra facilidade em conquistar a simpatia de sua interlocutora, desde o início, devido ao momento de vulnerabilidade desta às voltas com a indecisão de seu relacionamento amoroso e outros fatores, inclusive a sorte, que ajudam a fomentar a aliança supostamente inocente das duas.

Assim como as aparências enganam e ultrajam quando a verdade salta aos olhos, havia em Hedy uma metodologia sorrateira em suas ações e um maquiavélico modus operandi em suas intenções. A personagem de Jennifer Jason Leigh vislumbra em Allie a senhoria perfeita para por em prática seu projeto psicótico de encantamento e sedução devidamente planejado e orquestrado de forma discreta.

Reincidente em seu passado obscuro e irmã gêmea de outrem, a personagem é dominada pelo transtorno obsessivo-compulsivo e pela esquizofrenia em sua psique espatifada e deformada e procura uma companhia feminina perfeita para a argamassa de um ideal de união que tinha com sua parenta jamais esquecida em sua personalidade distorcida.

Arrojada em seu comportamento camuflado, Hedy muda a aparência física e compra roupas iguais para assumir a identidade de Allie com o intuito inicial de reviver seu conflito identitário em seu passado mal resolvido. Acontece que a empreitada foge de seu controle e a vilã aproveita seu anonimato (e seu nome adulterado) para deixar pistas falsas que apontariam a mocinha como provável culpada de seus nebulosos devaneios psicóticos.

Mulher solteira procura exibe cenas de nudez das protagonistas e insinuações carnais da sensual Hedy tanto para com Allie como para com seu noivo Sam Rawson/Steven Weber (Hamburger Hill)  que explicitam a insatisfação sexual e o vazio existencial da personagem. Momentos que afirmam a busca da mesma em criar elos e vínculos com seus interlocutores difíceis de serem desfeitos.

Fotogramas libidinosos que no seu ápice mostram masturbação feminina e realçam a tendência da época depois do estrondoso sucesso do subestimado 9 e 1/2 semanas de amor, de 1986, de Adrian Lyne e de várias outras produções que usaram o artifício como o interessante Orquídea selvagem, de 1989, de Zalman King.

Allie ocupada em suas funções como estilista e com seu psicológico abalado com o término de seu noivado e como sua posterior antagonista carente de afeto não vislumbra os sentimentos rasteiros e manipuladores desta em tempo hábil de evitar as ações desenfreadas e insanas de Hedy.

Mesmo alcançando êxito em suas pretensões cênicas ao realçar a tensão e algum mistério em sua narrativa, com decupagem ágil e boa direção de Barbet Schroeder o longa-metragem exprime a ausência do fator surpresa. A obra possui muitos elementos fílmicos que se atropelam e alguma inverossimilhança em seu desfecho. Ainda assim, Mulher solteira procura é satisfatório tratado sobre a solidão.

A arquitetura do prédio-locação da maioria de suas cenas surge como elemento que destaca a atmosfera cinzenta da narrativa. Situado em Nova York, o decadente e imenso local exala aspectos de periculosidade como o elevador defeituoso, além de garagem e lavanderia desertas. Localização ideal para Hedy executar seu plano doentio sem despertar suspeitas.

O longa-metragem mesmo para o ano de produção (1992) não chega a ser completamente original por ser herdeiro do mote e da concepção fílmica do memorável Morando com o perigo, de 1990 com o escroque inquilino interpretado por Michael Keaton aterrorizando seus senhorios Melanie Griffith e Matthew Modine.

O gênero suspense psicológico estava em alta na época com o lançamento do decepcionante Dormindo com o inimigo, também de 1991 com a oprimida Julia Roberts e seu agressivo e maníaco-compulsivo marido interpretado por Patrick Bergin, como também do desconcertante Instinto selvagem, de 1992 com Sharon Stone.

Mulher solteira procura narra a psicopatia de uma personagem de psique pérfida, intrusiva e possessiva na afeição e no cotidiano de outrem devidamente escolhida no seu imaginário torpe. Intuitiva e perspicaz, a personagem consegue por algum momento seu objetivo e guiada pelo ciúme doentio e carência afetiva extremados procura eliminar aqueles que tenderiam a atrapalhar seu projeto torto de convivência humana.

Mulher solteira procura é um painel amargo sobre o colapso relacional do homo sapiens em acreditar em intenções e razões do outro. Um retrato plausível de alguém que vislumbra não haver outra saída para preservar sua existência a não ser se fortalecer psicologicamente e usar das mesmas táticas persuasivas e da mesma letalidade de sua antagonista.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 9 de julho de 2019

Crítica: A estranha perfeita

Personalidades pérfidas e amorais





A estranha perfeita (EUA, 2007), dirigido por James Foley (Quem é essa garota?), trabalha com dissimulações e engenharia mental de um personagem em criar condições para executar, forjar seu álibi e encontrar o bode expiatório ideal para um assassinato cujo plano teórico concebido e seu mecanismo prático beiram o sublime.

O mistério sobre a identidade do(a) criminoso(a) vai sendo costurado de forma exemplar por James Foley que coloca a jornalista investigativa Rowena Price/Halle Berry (Coisas que perdemos pelo caminho) a protagonista principal e seu principal coadjuvante, Miles Haley/Giovanni Ribisi (Cold Mountain), em claro procedimento investigatório cujo alvo é o empresário Harrison Hill/Bruce Willis (Duro de matar).

A estranha perfeita evidencia seu carisma em criar uma atmosfera que retrata um interesse crescente por seu desfecho, pela identidade do culpado. Apoiado em ótimo roteiro de Todd Komarnick (Sully - O herói do rio Hudson) o diretor realizou uma pequena obra-prima sobre a falta de escrúpulos e a perversidade humana em estado bruto quando o sentimento de vingança e a consequente necessidade de salvar a própria pele das garras da lei se consolidam em suas personalidades maquiavélicas.

Com inspiração nos clássicos suspenses de outrora e no cinema noir, A estranha perfeita é uma máquina de personalidades psicológicas típicas de um sistema perverso de sentimentos no qual ninguém é pobre pecador expiando seus pecados. O sentimento indigesto e impiedoso da traição fica notório em cada gesto e ação de seus protagonistas e coadjuvantes. Universo de lei da selva em que mesmo amizades aparentemente sólidas e com a mesma ideologia são desfeitas em prol da sobrevivência.

Arrojado, intrigante, sólido A estranha perfeita aborda de forma original a engrenagem do mistério que envolve um crime sem resvalar no maniqueísmo habitual e escancara a singularidade de protagonistas que possuem algo a esconder e sempre com algo a perder que bate na tela revelando a essência sórdida de seus integrantes e suas plausíveis subsequentes motivações para as insanidades perigosas que se chocam com os interesses de outrem parecido em sua psique inescrupulosa e deformada.

James Foley filma ângulos e enquadramentos ímpares - evidenciado em seu prefácio e clímax - e alcança êxito ao lidar com as idiossincrasias da trama recheada de personagens tanto inteligentes quanto pérfidos e sem remorsos em suas ações. O mote de A estranha perfeita coloca os atores em confronto psicológico e por vezes físico no qual o calcanhar de Aquiles de um é investigado e pisoteado por outro.

Desde o pervertido sexual passando pelo assediador de mulheres compulsivo até a ninfomaníaca cujo assassinato move a trama revelam as profundezas lamacentas das psiques de seus personagens centrais A estranha perfeita vai sendo costurado de forma inequívoca e com intenso domínio fílmico em sua narrativa definida e oferece ao espectador uma brilhante interpretação de Halle Berry sua protagonista principal.

James Foley possui boa condução de seus atores e filma as reviravoltas da trama com maestria, de forma linear e sem atropelos e exibe sua técnica com trechos de frases-chave no clímax. Ainda que o desfecho explicite alguma celeridade no formato sua solução final é verossímil e satisfatória.

Como um emocionante e clássico jogo de tabuleiro, o longa-metragem narra uma intrincada trama de suspense psicológico e dedução recheada de pistas falsas subversivas e vislumbra o crime perfeito para ajustar as peças de sua engrenagem no desfecho.

A estranha perfeita usa fragmentos de flashbacks como recurso fílmico para adensar sua verve detetivesca e no desenlace como demonstração da motivação do ato criminoso e mostra o ônus da subestimação da capacidade de dedução instintiva e intuitiva do seu interlocutor.

Estiloso, imprevisível, atraente A estranha perfeita aborda manipulações rasteiras em psiques distorcidas na infância e gritante indução ao erro judiciário de seu elo mais frágil e visado. Um painel realista e amargo sobre a amoralidade e a falta de ética presentes no psicológico de seus elementos.

A estranha perfeita funciona como síntese do colapso do ideal civilizatório do homo sapiens e provoca o embate de artimanhas entre semelhantes.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 2 de julho de 2019

Crítica: Casal improvável

Acasos do Cupido





Casal improvável (EUA, 2019), dirigido por Jonathan Levine (Os caça-noivas), trabalha com as antagônicas diferenças de cunho social, comportamental e física que tenderiam a distanciar os protagonistas principais Freddy Flarsky/Seth Rogen (Minha mãe é uma viagem) e Charlotte Field/Charlize Theron (Atômica). Em efeito reverso, a obra tece e solidifica sua aproximação e consolidação.

Comédia de costumes, Casal improvável possui o estilo típico de algumas produções estreladas por Seth Rogen com elementos como o humor tosco mas inteligente em seus diálogos primorosos e por vezes ferinos que revelam certa verborragia, alguma escatologia e duração esticada. Bem-alinhavado em suas idiossincrasias fílmicas, o longa-metragem evidencia e se beneficia de sua real vocação de ser um besteirol costurado com tutano.

Seth Rogen estrelou o filme que inaugurou o filão, Ligeiramente grávidos, de 2007, e se vislumbra em Casal improvável a mesma verve narrativa e a naturalização e afirmação de um subgênero o da comédia romântica desglamourizada, que aborda situações corriqueiras com seus personagens com conflitos reais em situações facilmente identificáveis no dia a dia dos espectadores. Não há aqui a tentativa de desconectar do cotidiano tanto personagens como suas respectivas emoções e psiques.

As cenas de sexo implícito entre Freddy Flarsky e Charlotte Field reafirmam a intenção de Jonathan Levine e de seus dois principais intérpretes e produtores do processo fílmico de tornar seus personagens factíveis com a humanidade e seus dilemas morais, éticos, sexuais. Recurso cênico arrojado e explicitado, por exemplo, nas fantasias eróticas da coprotagonista que embaralham o raciocínio lógico de seu parceiro.

O longa-metragem procura a desconstrução de um imaginário popular onde mesmo uma mulher de status profissional elevado - Charlotte Field é secretária de estado do governo norte-americano - sente e fantasia os mesmos desejos libidinosos que uma cidadã comum.

Em momento antológico onde depois de sofrer um atentado, Charlotte Field busca, na companhia de Freddy Flarsky, a fuga de sua rotina e de seu psicológico rígido e compromissado com a carreira em uma noitada na boate e depois estendida para seu quarto regada à álcool e entorpecentes. Prudentemente disfarçados, assim como seus seguranças.

Como em toda situação onde a inexperiência e o ineditismo do fato prevalece, a situação transborda para o inevitável e excessivo uso de seus elementos dispersivos da racionalidade e respinga no senso de responsabilidade da personagem quando esta precisa negociar, como osso do ofício, com um sequestrador estrangeiro ainda inebriada. Cena-sequência hilariante e impagável que funciona como síntese da obra.

Cômico e romântico na medida certa, Casal improvável aborda, em dado momento, o distanciamento por motivos profissionais da dupla que gera sofrimento e angústia em ambos e evidencia o que estava invisível para a protagonista e seu par: a saudade da companhia do outro que desperta em ambos a pulsão de vida e o amor que a ausência provoca e acentua.

Criativo, ímpar, diferenciado Casal improvável se beneficia de certa originalidade e interesse crescente e trabalha com o sonho e ideologia que advém da infância no planejamento almejado da trajetória de Charlotte Field e que mesmo sob pressão de chantagens e demais adversidades resiste devido e sobretudo à presença de seu par romântico.

A personagem de Seth Rogen abala a estrutura psicológica de Charlotte Field com tamanha intensidade com sua personalidade oposta mas semelhante na índole que exprime e reflete o conceito dos dois polos dicotômicos que se completam e se fortalecem.

Seth Rogen e Charlize Theron atuam de forma espontânea e souberam captar o ritmo do longa-metragem e o peso de seus respectivos papeis. Freddy Flarsky rude, bronco, sincero se adaptou bem ao refinamento, polidez, idealismo de sua interlocutora e vice-versa.

O casal apaixonado encontra em sua união a razão de sua existência. O acaso do Cupido contraria todos prognósticos contrários ao seu enlace e toda improbabilidade da empreitada não ser exitosa.

Márcio Malheiros França

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Crítica: MIB: Homens de preto - Internacional

Blindagem psicológica






MIB: Homens de preto - Internacional (EUA, 2019), dirigido por F. Gary Gray (A negociação), trabalha com o desejo latente e obstinado de sua co-protagonista - interpretada por Tessa Thompson (Creed - Nascido para lutar) - de ser parte de algo que a influenciou na infância; com o vislumbramento de ser útil naquilo que a motiva.

Sequência da trilogia original de Barry Sonnenfeld iniciada em 1997, o longa-metragem procura focar mais no psicológico de seus personagens e em um mote que explora levemente os dilemas e aspirações destes que entupir a trama com ação ininterrupta (recurso já presente no terceiro capítulo de 2012).

A mistura explosiva de thriller e humor embalados por efeitos especiais de primeira que a franquia exala na telona se revela desde o original exitosa. Assim, a ficção-científica surrealista e debochada que os quatro filmes na verdade o são mostra sinais de fadiga e ausência de robustez neste episódio. A produção carece de uma narrativa envolvente e consistência cênica.

Ainda que seus diálogos sejam bem sacados, a ausência de um comediante nato como o agente J de Will Smith e sua valiosa verve cômica reflete o peso do papel. Chris Hemsworth mesmo com boa performance se esforça como o agente H para conduzir o personagem na empreitada da mesma forma que seu antecessor para (quase) atingir o objetivo.

Almejando acrescentar entrosamento na dupla de protagonistas principais, MIB 4 dispõe de um elemento fílmico produzido em computação gráfica o peão de xadrez que com tiradas cômicas auxilia o funcionamento da trama.

MIB 4 destaca a agente M/Tessa Thompson e sua visão realista e prosaica da humanidade. Uma personagem que se enquadra nos requisitos básicos da agência fictícia do governo norte-americano com ramificações em alhures: ausência de entes e relacionamento amoroso que poderiam se tornar em seu calcanhar de Aquiles.

Com alguns clichês, o longa-metragem se esforça para não cair na armadilha do óbvio e do lugar-comum, sem sucesso. Há uma clara intenção de humanizar os protagonistas e mesmo a manutenção de sua essência a narrativa se revela previsível e seu resultado final é corriqueiro.

A obra aborda manipulação e interesses escusos dentro da corporação e a reviravolta no clímax não chega a surpreender e causar o impacto desejado, ainda que o suspense provocado pela investigação e revelação de um agente duplo insinue algum interesse.

O sexo ou sua tentativa entre humanos e alienígenas evidencia a intenção da franquia em se reinventar, porém seus fotogramas demonstram traços insofismáveis de cansaço e esgotamento de ideias.

Liam Neeson (Vingança a sangue frio) e Emma Thompson (O bebê de Bridget Jones) completam a escalação estelar de MIB 4 e locações como Paris, Nápoles, Nova York e Marrakesh referenciam e justificam o subtítulo Internacional da produção.

O longa-metragem trata do objetivo traçado que compensa a existência de sua personagem agente M e caridosa amealha para si recompensas em situações nefrálgicas de perigo como a gratidão do alienígena do prefácio que anos depois e mesmo em dicotômico e antagônico lado ideológico reconhece e retribui a boa ação desta em seu terço final.

Uma personagem que camufla e blinda seu psicológico com alguma impassividade emocional e que, de forma insistente, depois de duas décadas, se insere naquilo que acredita e aguça sua psique.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 18 de junho de 2019

Crítica: Obsessão

A ausência do instinto perceptivo



Obsessão (EUA, Irlanda, 2018), roteirizado e dirigido por Neil Jordan (Fim de caso), trabalha com a psicopatia que gera a formação de uma assassina em série ocasionada por um evento que rompe a base psicológica de uma personagem - interpretada por Isabelle Huppert (Elle); sobre o transtorno mental presente desde sempre na psique de sua protagonista vilã.

Greta Hideg/Isabelle Huppert deixa propositalmente bolsas femininas em vagões do metrô nova-iorquino com informações pessoais para atrair moças bem-intencionadas a devolvê-las para si. O jogo começa quando Frances McCullen/Chloë Grace Moretz (O mau exemplo de Cameron Post) encontra uma delas e, de forma inadvertida, resolve procurar a dona do item suposto perdido.

O renomado cineasta irlandês, como em algumas obras anteriores, assinou um típico produto industrial. Escapou de Neil Jordan aqui a criatividade autoral na condução da trama observada em produções como o interessante Ondine, de 2009 e a obra-prima Traídos pelo desejo, de 1992 com seu alter ego Stephen Rea (A vingança do mosqueteiro) onipresente em diversos títulos de sua extensa e relevante filmografia, inclusive neste.

Os longa-metragens do gênero suspense psicológico estão em alta no cinema norte-americano. O impecável e desconcertante Nós, de Jordan Peele e o razoável e desenfreado Ma, de Tate Taylor, são exemplares recentes.

O mote de Obsessão evidencia uma co-protagonista tão metódica quanto letal. Greta Hideg é uma personagem-psiquiátrica recorrente como elemento condutor no cinema. Sua psicopatia com suas causas, motivações e as subsequentes ações decorrentes da mesma revelam um desequilíbrio psicológico observado em outras produções de Hollywood.

A talentosa Isabelle Huppert interpreta a sofisticada, sorrateira, pérfida personagem com vigor e intensidade na perseguição incessante e implacável à Frances MacCullen e, como efeito colateral, também à sua amiga e colega de moradia Erica Penn/Maika Monroe (A 5ª onda).

A cena no restaurante na qual Frances MacCullen trabalha como garçonete, lá pelo miolo da obra, onde Greta Hideg sai de seu próprio capenga equilíbrio emocional ao som de música clássica escancara seu inadequado comportamento social e sua notória verve psicótica.

Outra cena-sequência destacada ocorre no clímax na qual a personagem dança balé ao receber a visita do investigador particular Brian Cody/Stephen Rea. Esta lembra a sequência antológica apresentada no episódio O quebra-nozes do clássico desenho animado Coragem, o cão covarde exibido pelo canal a cabo Cartoon Network.

Obsessão depende muito do talento de Isabelle Huppert e mesmo esta não decepcionando na tarefa o filme não atinge plenamente seu objetivo como um eficaz suspense psicológico, mesmo havendo na narrativa alguns momentos nefrálgicos o resultado final é diluído pela ausência de um clima sombrio e claustrofóbico que a trama exigia.

Ainda que o longa-metragem se esforce em apresentar algumas cenas originais e tensas estas se anulam na transição entre sua elaboração e a sua concepção. Obsessão se ressente de uma trilha-sonora adequada que realce seus momentos mais agudos e gritante assincronia entre a sua real vocação e seu resultado final. Ainda assim, a obra não é de toda descartável e sim ligeiramente curiosa.

Lépida e mordaz, com conhecimentos farmacêuticos, adquiridos na profissão de enfermeira, a co-protagonista Greta Hideg apresenta uma severa falta de empatia para com o espectador (ainda que Isabelle Huppert se esforce). Essa idiossincrasia fílmica pesa na relevância que Obsessão prometia e o que entrega.

A fotografia excessiva em tom escuro - que chega em alguns fotogramas a sombrear o rosto de seus protagonistas - em locações noturnas e não somente tenderia a realçar a atmosfera sombria que Neil Jordan procura imprimir ao filme sem êxito.

A surpreendente reviravolta no desfecho corrobora com a finalidade de Neil Jordan de colocar sua impressão digital em uma obra irregular e claudicante em sua narrativa com insofismável alternância entre escassos acertos e alguns equívocos comprometedores.

Oriunda de cidade de menor porte e carente de afetividade, Frances MacCullen apresenta certa ingenuidade e ausência de instinto perceptivo nas relações interpessoais na selva de pedra em sua psique de boa índole.

Aconselhada a não ser crédula em demasia por Erica Penn, a personagem apresenta dificuldade para se desvencilhar da caçada implacável da qual é vítima de sua antagonista e coloca em risco sua existência e de outrem para talvez encontrar na amizade verdadeira desta a tábua de salvação de sua mazela. 

Obsessão aborda a loucura e o sentimento de perda e posse; de controle e dominação elevados ao cubo de uma personagem com dons detetivescos e uma inteligência ímpar usada ao reverso que dentro de sua ideologia insana da qual se beneficia à exaustão acaba provando de seu próprio amargo e indigesto remédio.

Márcio Malheiros França

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Crítica: Godzilla II: Rei dos monstros

O culto ao personagem



Godzilla II: Rei dos monstros (EUA, 2019), escrito e dirigido por Michael Dougherty (Contos do dia das bruxas), trabalha com a possibilidade paradoxal de seres enormes serem a salvação do planeta; com a probabilidade da descalibragem causada pelos humanos na natureza e encontrarem em Godzilla e similares o ponto de equilíbrio e restauração da mesma.

Continuação do original de 2014 e blockbuster típico de verão de Hollywood, a ficção-científica de contorno gritante surrealista que a superprodução na verdade é apresenta um mote que não desperta interesse e um fiapo de roteiro e drama familiar para, depois de um prefácio razoável, entupir a telona de ação incessante turbinada por excessivos recursos visuais especiais e, com isso, causarem como efeito colateral algum fastio em sua narrativa.

Puro cinema escapista, Godzilla II: Rei dos monstros evidencia a intenção de jorrar adrenalina sem se preocupar muito em costurar suas idiossincrasias cênicas com uma trama, no mínimo, plausível. A narrativa com suas cobiçadas criaturas radioativas criadas em cativeiros bases espalhados pelo planeta se assemelha ao universo da série Jurassic Park Word com seus dinossauros clonados do DNA de seus ancestrais.

No universo fantástico do filme-catástrofe, Michael Dougherty opta pelo culto ao personagem japonês e ainda, conforme o subtítulo entrega, em enaltecer (em demasia) o mesmo. Nuance fílmica exacerbada na reverência explícita à Godzilla no clímax e em frases referenciais de impacto que o credencia como uma divindade a ser colocada no altar.

O recurso onipresente nas adaptações da mítica e fictícia criatura da fotografia em tom escuro na maioria de suas cenas - em locações noturnas e não somente - também era notório no mais atraente Godzilla, de 1998 com Matthew Broderick. Roupagem que garante méritos à produção.

Dra. Emma Russell/Vera Farmiga (Invocação do mal) é o fio condutor do ressurgimento do protagonista e coadjuvantes criados por computação gráfica. Traumatizada pela perda do primogênito, resolve ajudar meliantes a acordar os gigantes e, assim, liberar toda a adrenalina nefrálgica da obra. Seu marido Mark Russell - interpretado pelo bom ator Kyle Chandler (Manchester à beira-mar) - e filha Madison Russell/Millie Bobby Brown (estreante no cinema) precisam entrar em ação para evitar estragos maiores.

Ideologizada ao reverso, Emma Russell emite, em dado momento, um pronunciamento arrojado tamanha inverossimilhança no qual os monstros inaugurariam uma nova era da humanidade em prol da natureza ameaçada pelo homo sapiens.

Intenso, vibrante, insano Godzilla II: Rei dos monstros trata de redenção e heroísmo ao abordar a catarse emocional de uma persona em constante luto e vulnerável em sua psique.

Emma Russell inadvertidamente abre a caixa de Pandora da humanidade acreditando em suas razões toscas e implausíveis e coloca em risco sua existência para fechar a mesma. Uma personagem que precisava curar sua cicatriz psicológica antes de sair da sensatez para o desatino.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 4 de junho de 2019

Crítica: Ma

A linha tênue que separa a lucidez da loucura




Ma (EUA, 2019), dirigido por Tate Taylor (Histórias cruzadas), trabalha com a psicopatia de uma personagem interpretada por Octavia Spencer (Estrelas além do tempo) que passa a afetar a vida de um grupo de estudantes, seus pais e uma boa parte de uma comunidade de uma pequena cidade norte-americana; versa sobre um trauma de infância (revividos em retrospectos ao longo da trama) que desencadeia uma série de fatos anos após o mesmo.

Sue Ann/Octavia Spencer trabalha como assistente de veterinária em uma pet shop. Ao aceitar o pedido da novata Maggie/Diane Silvers, a co-protagonista principal, e a sua nova turma do colégio para comprar bebida alcoólica para os impúberes jovens, este ato desencadeia reminiscências de sua fase de estudante e a humilhação que sofreu entre os seus.

Com o desejo de vingança sempre presente em seu âmago e antenada com as novas tecnologias decide por se colocar no contexto dos mesmos até se ver excluída novamente - fator chave que determinará o caos para si e ao seu redor -.

Típico produto de Hollywood, Ma possui em essência uma vasta lista de clichês dos gêneros suspense e terror que são notórios em sua narrativa. Desde o cachorro da adolescente que aparece ferido sem explicação à presença da antagonista na casa de Maggie sem se referir que a conhece, a obra bate na tela com nuances que evidenciam pouca originalidade.

Acontece que o longa-metragem mesmo possuindo uma decupagem ágil apresenta uma certa intensidade de elementos narrativos que se atropelam e que anulam a tensão e o suspense que deveriam existir em cada um deles. Essa velocidade da trama - exacerbada em seu terço final - são impeditivos da construção eficaz de um clima sombrio e envolvente que segure o espectador com uma narrativa definida. Característica essencial dos grandes e dos bons exemplares similares.

O filme segue uma tendência recente do cinema norte-americano de, vez ou outra, brincar com o próprio estilo cinematográfico. Como Octavia Spencer que parece não levar à sério seu personagem, o longa-metragem talvez seja melhor apreciado como uma autêntica brincadeira.

Como visto no final do intrigante A garota no trem, seu filme anterior, Tate Taylor deixa sua digital no longa-metragem ao filmar, no clímax, a mesma violência escatológica, desencadeada por Sue Ann, entre personagens antes impassíveis que surpreendem com reações inesperadas que deixam a impressão de uma pequena barbárie, um holocausto humanitário que se transforma a locação escolhida que antes serviu para estrondosas festas de adolescentes farristas.

A ótima atriz Octavia Spencer resolveu seguir a receita apresentada à Robin Williams que depois de mais de uma década em papéis leves em comédias (Uma babá quase perfeita, de 1993) e dramas de menor intensidade dramática (Patch Adams - O amor é contagioso, de 1998) e, sobretudo, do fracasso de público e crítica O homem bicentenário, de 1999 atuou nos anos seguintes, para salvar a carreira, em duas produções nas quais seus papeis apresentavam traços de psicopatia: Insônia, de 2002 e Retratos de uma obsessão, também de 2002.

Ma se assemelha ao episódio Mamãe ama vocês do desenho Jovens titãs exibido pelo canal a cabo Cartoon Network e apresenta uma gritante falta de concisão e imprecisão em sua trama. Mal-ajambrado e claudicante, o longa-metragem revela, como a personagem principal, um nível caótico de indefinições e possui um assustador resultado final insatisfatório.

A personalidade intrínseca da antagonista foi mal delineada e não ficam evidenciadas várias de suas facetas como sua real finalidade e intenções em relação ao desfecho de suas ações, além dos cuidados médicos e aparente zelo com a filha adolescente. Se havia em Sue Ann um planejamento. Contudo, depois que esta rompeu a linha tênue que separa a lucidez da loucura e o bom senso da estupidez vira um tormento incivilizado.

Como um asteroide em inevitável colisão com outro, Sue Ann deformada em sua psique e enrustida em sua demência passa por uma nebulosa catarse emocional e espatifada em seu psicológico se perde e sem controle torna-se uma ameaça letal e desenfreada.

Ma trabalha com o colapso social de uma personagem inescrupulosa e sem afeição para com outrem. Uma persona traumatizada que não soube esquecer o passado e procura viver como se nele estivesse inserida.

Márcio Malheiros França