domingo, 11 de agosto de 2019

Crítica: O professor substituto

Psiques precocemente amargas e cáusticas




O professor substituto (França, 2018), roteirizado e dirigido por Sébastien Marnier (Irrepreensível), versa sobre a união e arrogância de meia-dúzia de alunos superdotados em seus intelectos de uma classe de elite de uma renomada escola primária em uma cidade da França e seu estranho e bizarro modus vivendi e concepção sombria de evidente negação de suas existências refletidos em gritante falta de empatia e carisma entre os seus.

Azedos como a bílis produzida pela vesícula e exalando antagonismo que gera antagonismo, os coprotagonistas juvenis liderados por Apolinne/Luàna Bajrami (Feliz aniversário) e Dimitri/Victor Bonnel (estreante nas telonas) possuem um assustador e tétrico gosto por catástrofes naturais ou criminosas e um repugnante e lúgubre vislumbramento pela necrofilia e tortura humana e animal.

Fechados em um casulo como uma seita macabra e ideologizados politicamente com evidente visão prosaica da humanidade refletida na maneira incomum de conduzir sua rotina, o grupo apresenta interesse nefasto pelo inusitado e o escatológico e se esforça além do suportável física e emocionalmente para alcançar um estado psicológico de gritante impassividade com notória ausência dos sentimentos de medo e dor.

O professor substituto possui uma inclinação para o desconhecido em sua narrativa melancólica que explora imagens que revelam o apego ao trágico de seus elementos impúberes que afetam as suas respectivas psiques, o cotidiano estudantil e seus próprios professores.

Assim como a onda sufocante de crescente calor, o longa-metragem apresenta sucessivas e angustiantes situações com inclinações degradantes de seus protagonistas principais e coadjuvantes que apresentam algo incomum de latente inclinação para o lado obscuro e anormal em suas personalidades exóticas.

O longa-metragem de tonalidades intensamente dramáticas possui idiossincrasia experimental que exprime sua fuga da mesmice e dos padrões cênicos usuais com sua verve sombria de desencanto e desesperança de vários de seus intérpretes que apresentam tendências negativas de autodestruição e alguma imolação em seus psicológicos precocemente espatifados.

Pierre Hoffman/Laurent Laffitte (Elle) o professor que substitui o titular que optou pela tentativa de suicídio precisa sair de sua zona de conforto de sua profissão para ser o ponto de equilíbrio e um luminoso farol de sensatez em um ambiente nocivo e desesperador de protagonistas desregrados e descontrolados.

Há cenas em O professor substituto de puro suspense como as luzes que apagam na residência do protagonista e a aparição fantasmagórica dos líderes do grupo, Apolline e Dimitri, durante à noite, na penumbra do monitor, quando o personagem começa a substituir a razão psicológica pela disfunção em sua personalidade

Comportamento explicitado na sua obsessão pelas cenas fortes e impactantes contidas nos Dvd's dos estudantes que assiste à exaustão e no comportamento algo agressivo no âmbito escolar oposto à sua verdadeira essência.

As misteriosas ligações telefônicas que prefere atender com sons estranhos e o clima excessivamente quente em noites insones minam paulatinamente seu equilíbrio emocional e acentuam seu estado de espírito desequilibrado em função do estranho comportamento de seus alunos.

Assemelhada com A família Adams, a trupe juvenil e seu modo hermético de convivência, como em uma sociedade secreta, de encarar o mundo representa o negativismo em estado bruto das mazelas que o homem provoca na natureza e na falta de harmonia do planeta.

Essa força destrutiva de si próprios faz um paralelo com o possível e verossímil apocalipse provocado pela ganância famigerada por dinheiro e poder e encontra ressonância em diálogos ácidos e na composição de uma música algo tétrica, ainda que dançante, da turma e sua professora da disciplina.

Essa visão pessimista e de extremada ausência de perspectivas que Sébastien Manier joga na telona representa o colapso civilizatório que se traduz em latente e exponencial amargura de seus fotogramas e uma possível hecatombe da natureza tal como se conhece por fatores diversos que convergem para a mesma finalidade ruidosa e depreciativa.

O longa-metragem de origem francesa e do século XXI é o espelho de algumas obras fonográficas de sucesso do Rock tupiniquim oitentista. Tanto musicalmente explicitadas em suas icônicas letras como seus respectivos clipes de divulgação já expunham essa tendência com suas verves contestatórias e algo premonitórias nas faixas: Soldados, da banda brasiliense Legião Urbana, de 1985; Só o fim, da formação baiana Camisa de Vênus, de 1986 e Carta aos missionários, do conjunto carioca Uns e Outros, de 1989.

Provocador, intrigante, contestador O professor substituto aborda o declínio e a degradação da sociedade moderna e apresenta um líder do cenário mundial como uma peça-chave desta engrenagem.

Em completa redoma antissocial, os descontrolados e intrinsecamente rebeldes alunos da classe especial (há uma divisão na própria sala de aula) são um produto atípico e pavoroso da sociedade atual.

Ainda que seu membro mais frágil e visado recue do ato de completa insanidade no desfecho e navegando na contramão dos jovens da atualidade ao não fazerem uso da internet e sem supervisão dos seus progenitores e dos membros da escola, Apolinne e os demais transmitem cáustica arrogância em outrem que evidencia a fuga da obviedade e do comum no texto e na direção de Sébastien Manier.

Pierre de Laurent Laffitte é o elemento que vislumbra o desenrolar do processo de desequilíbrio mental e psicológico de seus alunos e demais integrantes do corpo docente e acadêmico da instituição. Sua psique sofre abalo com a perspectiva de implosão dos adolescentes com seus jogos de resistência e a plausível possibilidade de provocarem o caos com suas personalidades distorcidas e rochosas.

O personagem de Laurent Laffitte de tendência homossexual com atração por um colega de magistério e ex-amante de seu vizinho Steve/Gringe (Inocência roubada) surge como a peça que pretende repor a normalidade do mecanismo difuso no perverso sistema imposto pelos alunos.

Ainda que perca momentaneamente o seu próprio norte e flerte com o sentimento desprezível de prazer de chinelar baratas e notório desleixamento com a salubridade de sua residência, Pierre é a síntese e a antítese dos demais.

Pierre surge como salvador em situações de total catástrofe e, em dado momento, diante do inevitável e sem ter como resolver demonstra resignação com aparente cumplicidade, ao menos no conhecimento, no ato final de desmonte do sistema vigente perpetrado pelas mentes brilhantes entupidas de empáfia.

Sébastien Manier utiliza o recurso da pouca luminosidade para realçar o clima claustrofóbico de sua obra inclusive no clímax no castelo, logo após a cerimônia de formatura dos formandos, onde Pierre apenas com a lanterna de seu celular busca vestígios das crianças.

O professor substituto possui uma singularidade exemplar que inebriaga as emoções do espectador em sua narrativa ambígua e crua e sua ausência de linearidade fílmica evoca um interesse crescente pela cena seguinte, por algo que expresse o inabitual.

Imprevisível, subversivo, instigante O professor substituto aborda de forma incrivelmente original e crível coprotagonistas incomuns que revelam a sordidez da natureza humana quando há falta de controle sem resvalar no maniqueísmo habitual. Suas ações são movidas por angustiadas psiques e representam causa e efeito do ambiente opressor que os rodeia.

O professor substituto é um tratado sobre o apocalipse da Terra ocasionado por agentes tóxicos em sua estrutura antes harmoniosa em função da insensatez humana traduzida em valores e ganhos materiais e do colapso da racionalidade de seus elementos.

Um retrato sombrio da humanidade com intenso potencial de destruição ao seu redor que reflete em tentativa de suicídio coletivo como válvula de escape e perigosa animosidade entre os seus semelhantes.

O professor substituto é um oásis referencial de aberrações ímpares mesmo para o cinema francês ao narrar o cotidiano sombrio de personagens tanto exóticos quanto intrigantes e prolíficos em sentimentos e ações mórbidas. Alarmista e essencial, o filme resvala na distopia sem de fato nela se inserir.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 16 de julho de 2019

Crítica: Mulher solteira procura

Morando com o perigo




Mulher solteira procura (EUA, 1992), dirigido por Barbet Schroeder (O reverso da fortuna), trabalha com o ônus da necessidade financeira em custear as despesas de um apartamento que promove o encontro de suas jovens protagonistas principais Allison 'Allie' Jones/Bridget Fonda (Dr. Hollywood - Uma receita de amor), a locatária, com Hedra 'Hedy' Carlson/Jennifer Jason Leigh (Cortina de fogo), a sublocatária.

Barbet Schroeder se vale de um texto escrito à seis mãos para tecer uma narrativa que paulatinamente vai expondo a verve psicótica de Hedy em uma embalagem de crescente atmosfera sombria, sufocante claustrofobia e suspense psicológico. A produção é um eficaz exercício de terror implícito para no terço final escancarar sua verdadeira vocação de terror explícito e violência em estado bruto provocada pela sua personagem-psiquiátrica.

A premissa de Mulher solteira procura evidencia o carisma e a personalidade forte de Hedy em contraponto à fragilidade emocional presente na psique de Allie exponenciadas na procura do vizinho amigo e homossexual Graham Knox/Peter Friedman para passar a noite depois da desilusão com seu romance e no sentimento de culpa depois de sofrer assédio no ambiente de trabalho.

A personagem de Jennifer Jason Leigh encontra facilidade em conquistar a simpatia de sua interlocutora, desde o início, devido ao momento de vulnerabilidade desta às voltas com a indecisão de seu relacionamento amoroso e outros fatores, inclusive a sorte, que ajudam a fomentar a aliança supostamente inocente das duas.

Assim como as aparências enganam e ultrajam quando a verdade salta aos olhos, havia em Hedy uma metodologia sorrateira em suas ações e um maquiavélico modus operandi em suas intenções. A personagem de Jennifer Jason Leigh vislumbra em Allie a senhoria perfeita para por em prática seu projeto psicótico de encantamento e sedução devidamente planejado e orquestrado de forma discreta.

Reincidente em seu passado obscuro e irmã gêmea de outrem, a personagem é dominada pelo transtorno obsessivo-compulsivo e pela esquizofrenia em sua psique espatifada e deformada e procura uma companhia feminina perfeita para a argamassa de um ideal de união que tinha com sua parenta jamais esquecida em sua personalidade distorcida.

Arrojada em seu comportamento camuflado, Hedy muda a aparência física e compra roupas iguais para assumir a identidade de Allie com o intuito inicial de reviver seu conflito identitário em seu passado mal resolvido. Acontece que a empreitada foge de seu controle e a vilã aproveita seu anonimato (e seu nome adulterado) para deixar pistas falsas que apontariam a mocinha como provável culpada de seus nebulosos devaneios psicóticos.

Mulher solteira procura exibe cenas de nudez das protagonistas e insinuações carnais da sensual Hedy tanto para com Allie como para com seu noivo Sam Rawson/Steven Weber (Hamburger Hill)  que explicitam a insatisfação sexual e o vazio existencial da personagem. Momentos que afirmam a busca da mesma em criar elos e vínculos com seus interlocutores difíceis de serem desfeitos.

Fotogramas libidinosos que no seu ápice mostram masturbação feminina e realçam a tendência da época depois do estrondoso sucesso do subestimado 9 e 1/2 semanas de amor, de 1986, de Adrian Lyne e de várias outras produções que usaram o artifício como o interessante Orquídea selvagem, de 1989, de Zalman King.

Allie ocupada em suas funções como estilista e com seu psicológico abalado com o término de seu noivado e como sua posterior antagonista carente de afeto não vislumbra os sentimentos rasteiros e manipuladores desta em tempo hábil de evitar as ações desenfreadas e insanas de Hedy.

Mesmo alcançando êxito em suas pretensões cênicas ao realçar a tensão e algum mistério em sua narrativa, com decupagem ágil e boa direção de Barbet Schroeder o longa-metragem exprime a ausência do fator surpresa. A obra possui muitos elementos fílmicos que se atropelam e alguma inverossimilhança em seu desfecho. Ainda assim, Mulher solteira procura é satisfatório tratado sobre a solidão.

A arquitetura do prédio-locação da maioria de suas cenas surge como elemento que destaca a atmosfera cinzenta da narrativa. Situado em Nova York, o decadente e imenso local exala aspectos de periculosidade como o elevador defeituoso, além de garagem e lavanderia desertas. Localização ideal para Hedy executar seu plano doentio sem despertar suspeitas.

O longa-metragem mesmo para o ano de produção (1992) não chega a ser completamente original por ser herdeiro do mote e da concepção fílmica do memorável Morando com o perigo, de 1990 com o escroque inquilino interpretado por Michael Keaton aterrorizando seus senhorios Melanie Griffith e Matthew Modine.

O gênero suspense psicológico estava em alta na época com o lançamento do decepcionante Dormindo com o inimigo, também de 1991 com a oprimida Julia Roberts e seu agressivo e maníaco-compulsivo marido interpretado por Patrick Bergin, como também do desconcertante Instinto selvagem, de 1992 com Sharon Stone.

Mulher solteira procura narra a psicopatia de uma personagem de psique pérfida, intrusiva e possessiva na afeição e no cotidiano de outrem devidamente escolhida no seu imaginário torpe. Intuitiva e perspicaz, a personagem consegue por algum momento seu objetivo e guiada pelo ciúme doentio e carência afetiva extremados procura eliminar aqueles que tenderiam a atrapalhar seu projeto torto de convivência humana.

Mulher solteira procura é um painel amargo sobre o colapso relacional do homo sapiens em acreditar em intenções e razões do outro. Um retrato plausível de alguém que vislumbra não haver outra saída para preservar sua existência a não ser se fortalecer psicologicamente e usar das mesmas táticas persuasivas e da mesma letalidade de sua antagonista.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 9 de julho de 2019

Crítica: A estranha perfeita

Personalidades pérfidas e amorais





A estranha perfeita (EUA, 2007), dirigido por James Foley (Quem é essa garota?), trabalha com dissimulações e engenharia mental de um personagem em criar condições para executar, forjar seu álibi e encontrar o bode expiatório ideal para um assassinato cujo plano teórico concebido e seu mecanismo prático beiram o sublime.

O mistério sobre a identidade do(a) criminoso(a) vai sendo costurado de forma exemplar por James Foley que coloca a jornalista investigativa Rowena Price/Halle Berry (Coisas que perdemos pelo caminho) a protagonista principal e seu principal coadjuvante, Miles Haley/Giovanni Ribisi (Cold Mountain), em claro procedimento investigatório cujo alvo é o empresário Harrison Hill/Bruce Willis (Duro de matar).

A estranha perfeita evidencia seu carisma em criar uma atmosfera que retrata um interesse crescente por seu desfecho, pela identidade do culpado. Apoiado em ótimo roteiro de Todd Komarnick (Sully - O herói do rio Hudson) o diretor realizou uma pequena obra-prima sobre a falta de escrúpulos e a perversidade humana em estado bruto quando o sentimento de vingança e a consequente necessidade de salvar a própria pele das garras da lei se consolidam em suas personalidades maquiavélicas.

Com inspiração nos clássicos suspenses de outrora e no cinema noir, A estranha perfeita é uma máquina de personalidades psicológicas típicas de um sistema perverso de sentimentos no qual ninguém é pobre pecador expiando seus pecados. O sentimento indigesto e impiedoso da traição fica notório em cada gesto e ação de seus protagonistas e coadjuvantes. Universo de lei da selva em que mesmo amizades aparentemente sólidas e com a mesma ideologia são desfeitas em prol da sobrevivência.

Arrojado, intrigante, sólido A estranha perfeita aborda de forma original a engrenagem do mistério que envolve um crime sem resvalar no maniqueísmo habitual e escancara a singularidade de protagonistas que possuem algo a esconder e sempre com algo a perder que bate na tela revelando a essência sórdida de seus integrantes e suas plausíveis subsequentes motivações para as insanidades perigosas que se chocam com os interesses de outrem parecido em sua psique inescrupulosa e deformada.

James Foley filma ângulos e enquadramentos ímpares - evidenciado em seu prefácio e clímax - e alcança êxito ao lidar com as idiossincrasias da trama recheada de personagens tanto inteligentes quanto pérfidos e sem remorsos em suas ações. O mote de A estranha perfeita coloca os atores em confronto psicológico e por vezes físico no qual o calcanhar de Aquiles de um é investigado e pisoteado por outro.

Desde o pervertido sexual passando pelo assediador de mulheres compulsivo até a ninfomaníaca cujo assassinato move a trama revelam as profundezas lamacentas das psiques de seus personagens centrais A estranha perfeita vai sendo costurado de forma inequívoca e com intenso domínio fílmico em sua narrativa definida e oferece ao espectador uma brilhante interpretação de Halle Berry sua protagonista principal.

James Foley possui boa condução de seus atores e filma as reviravoltas da trama com maestria, de forma linear e sem atropelos e exibe sua técnica com trechos de frases-chave no clímax. Ainda que o desfecho explicite alguma celeridade no formato sua solução final é verossímil e satisfatória.

Como um emocionante e clássico jogo de tabuleiro, o longa-metragem narra uma intrincada trama de suspense psicológico e dedução recheada de pistas falsas subversivas e vislumbra o crime perfeito para ajustar as peças de sua engrenagem no desfecho.

A estranha perfeita usa fragmentos de flashbacks como recurso fílmico para adensar sua verve detetivesca e no desenlace como demonstração da motivação do ato criminoso e mostra o ônus da subestimação da capacidade de dedução instintiva e intuitiva do seu interlocutor.

Estiloso, imprevisível, atraente A estranha perfeita aborda manipulações rasteiras em psiques distorcidas na infância e gritante indução ao erro judiciário de seu elo mais frágil e visado. Um painel realista e amargo sobre a amoralidade e a falta de ética presentes no psicológico de seus elementos.

A estranha perfeita funciona como síntese do colapso do ideal civilizatório do homo sapiens e provoca o embate de artimanhas entre semelhantes.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 2 de julho de 2019

Crítica: Casal improvável

Acasos do Cupido





Casal improvável (EUA, 2019), dirigido por Jonathan Levine (Os caça-noivas), trabalha com as antagônicas diferenças de cunho social, comportamental e física que tenderiam a distanciar os protagonistas principais Freddy Flarsky/Seth Rogen (Minha mãe é uma viagem) e Charlotte Field/Charlize Theron (Atômica). Em efeito reverso, a obra tece e solidifica sua aproximação e consolidação.

Comédia de costumes, Casal improvável possui o estilo típico de algumas produções estreladas por Seth Rogen com elementos como o humor tosco mas inteligente em seus diálogos primorosos e por vezes ferinos que revelam certa verborragia, alguma escatologia e duração esticada. Bem-alinhavado em suas idiossincrasias fílmicas, o longa-metragem evidencia e se beneficia de sua real vocação de ser um besteirol costurado com tutano.

Seth Rogen estrelou o filme que inaugurou o filão, Ligeiramente grávidos, de 2007, e se vislumbra em Casal improvável a mesma verve narrativa e a naturalização e afirmação de um subgênero o da comédia romântica desglamourizada, que aborda situações corriqueiras com seus personagens com conflitos reais em situações facilmente identificáveis no dia a dia dos espectadores. Não há aqui a tentativa de desconectar do cotidiano tanto personagens como suas respectivas emoções e psiques.

As cenas de sexo implícito entre Freddy Flarsky e Charlotte Field reafirmam a intenção de Jonathan Levine e de seus dois principais intérpretes e produtores do processo fílmico de tornar seus personagens factíveis com a humanidade e seus dilemas morais, éticos, sexuais. Recurso cênico arrojado e explicitado, por exemplo, nas fantasias eróticas da coprotagonista que embaralham o raciocínio lógico de seu parceiro.

O longa-metragem procura a desconstrução de um imaginário popular onde mesmo uma mulher de status profissional elevado - Charlotte Field é secretária de estado do governo norte-americano - sente e fantasia os mesmos desejos libidinosos que uma cidadã comum.

Em momento antológico onde depois de sofrer um atentado, Charlotte Field busca, na companhia de Freddy Flarsky, a fuga de sua rotina e de seu psicológico rígido e compromissado com a carreira em uma noitada na boate e depois estendida para seu quarto regada à álcool e entorpecentes. Prudentemente disfarçados, assim como seus seguranças.

Como em toda situação onde a inexperiência e o ineditismo do fato prevalece, a situação transborda para o inevitável e excessivo uso de seus elementos dispersivos da racionalidade e respinga no senso de responsabilidade da personagem quando esta precisa negociar, como osso do ofício, com um sequestrador estrangeiro ainda inebriada. Cena-sequência hilariante e impagável que funciona como síntese da obra.

Cômico e romântico na medida certa, Casal improvável aborda, em dado momento, o distanciamento por motivos profissionais da dupla que gera sofrimento e angústia em ambos e evidencia o que estava invisível para a protagonista e seu par: a saudade da companhia do outro que desperta em ambos a pulsão de vida e o amor que a ausência provoca e acentua.

Criativo, ímpar, diferenciado Casal improvável se beneficia de certa originalidade e interesse crescente e trabalha com o sonho e ideologia que advém da infância no planejamento almejado da trajetória de Charlotte Field e que mesmo sob pressão de chantagens e demais adversidades resiste devido e sobretudo à presença de seu par romântico.

A personagem de Seth Rogen abala a estrutura psicológica de Charlotte Field com tamanha intensidade com sua personalidade oposta mas semelhante na índole que exprime e reflete o conceito dos dois pólos dicotômicos que se completam e se fortalecem.

Seth Rogen e Charlize Theron atuam de forma espontânea e souberam captar o ritmo do longa-metragem e o peso de seus respectivos papéis. Freddy Flarsky rude, bronco, sincero se adaptou bem ao refinamento, polidez, idealismo de sua interlocutora e vice-versa.

O casal apaixonado encontra em sua união a razão de sua existência. O acaso do Cupido contraria todos prognósticos contrários ao seu enlace e toda improbabilidade da empreitada não ser exitosa.

Márcio Malheiros França

domingo, 3 de março de 2019

Crítica: Crimes obscuros

Erro de cálculo


Crimes obscuros (EUA e Polônia, 2016), dirigido por Alexandro Avranas (Miss Violence), trabalha com os bastidores de uma investigação policial de um crime brutal, com uma artimanha que envolve um escritor famoso, papel de Marton Csokas (Noé) e sua namorada Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca), cada qual com sua motivação pessoal.

Baseado em fatos reais e ambientado na cidade polonesa de Kraków, cinzenta e chuvosa, o longa-metragem se sustenta na narrativa sombria (realçada pela fotografia em tom neutro) e definida que o diretor impõe à obra. O roteiro de Jeremy Block revela-se atraente à medida que o projeção vai se desenrolando em uma obra policial noir paulatina, verossímil, potente.

A obsessão e obstinação de Tadek/Carrey conduz Crimes obscuros a se tornar um filme cult instantâneo por caminho quase que completamente original e conta com uma reviravolta em seu desfecho surpreendente e eficaz, filmada de forma hábil pela câmera de Avranas.

A excelente atuação de seu ator principal (Carrey) e a correta interpretação de sua coadjuvante (Gainsbourg) são um fator de força na apreciabilidade do filme.

Com atuação esmerada, Jim Carrey brilha como um investigador taciturno e introspectivo em sua psique que reverbera uma conduta moral e ética acima da média entre os seus - fator que evidencia seu erro no desfecho impensado de seu personagem -.

Charlotte Gainsbourg ilumina a telona com uma interpretação fechada na pele de Kasia, uma mulher viciada em drogas, lasciva, fatal e de uma enorme sensualidade, ainda que não recorra à maquiagem, tendo, portanto, um atributo recheado de volúpia libidinosa natural.

O ato sexual entre Tadek e Kasia possui uma nuance fílmica relevante para o desenrolar da trama. O desejo carnal que o personagem de Carrey sente por uma potencial suspeita no caso evidencia sua maior fragilidade.

O clube sadomasoquista que origina o mote da trama e os filmetes de cenas do local recentemente fechado que Tadek analisa, além do áudio-livro de Koslow/Csokas que o personagem principal escuta à exaustão, se assemelha à premissa de 8 milímetros, de 1999, com resultado um pouco mais denso que seu similar dos anos 90.

Há em Crimes obscuros muitos closes em Carrey que procura resolver o caso criminal, enquanto cuida da mãe e relega sua esposa ao segundo plano, para ser promovido após ser desqualificado de sua função em virtude de um erro em seu trabalho anterior. 

Tadek será usado durante as investigações por seus superiores e acabará completamente envolvido em sua solução que quase entrará em paranoia profissional.

Gélido, envolvente, nebuloso Crimes obscuros narra a epopeia de um homem focado em sua missão que se vê em um emaranhado de situações exóticas que exercitam sua psique, em detrimento de outros interesses, em busca de solucionar o mistério. 

Esta idiossincrasia prejudicará seu bom faro detetivesco ao ser guiado por pistas falsas, e, ainda, por cair em uma armadilha camuflada de feminilidade.

Tadek se anula por cair em luxúria ao sentir atração física pela pessoa errada e em momento inadequado e por seu inabalável senso de justiça. Um personagem demasiadamente intrigante. 

Como um paladino da verdade, Tadek peca ao ir longe demais sem calcular e aprofundar na análise dos sentimentos ocultos de seus antagonistas. Exemplar ode sobre a traição. 

Crimes obscuros é uma pequena obra-prima sobre o peso da idade de um homem que afeta a todos ao seu redor, e, inclusive, a si mesmo.

Márcio Malheiros França

terça-feira, 19 de março de 2013

Crítica: Ondine

A esperança que cresce com o amor




Ondine (EUA e Irlanda, 2009) trabalha com o surreal mote da possível existência de seres aquáticos, com características femininas. O roteiro (escrito pelo próprio diretor, Neil Jordan) do longa-metragem faz uma fusão entre realidade e fantasia, entre o concreto e o imaginário que bate na tela de forma original e marcante. O experiente cineasta explora de forma inequívoca a sensação de conto de fadas que é percebida na maioria de seus fotogramas.

Neil Jordan (também produtor da película) utiliza o talento de contornos dramáticos do bom ator Colin Farrell, da sensualidade de Alicja Bachleda-Curus, no papel que dá título ao filme e de seu alter ego de vários filmes, Stephen Rea, em participação secundária, na pele de um padre de um vilarejo do interior irlandês, para conceber uma metáfora sobre o caminho insinuante que move o coração.

A tradução de Ondine é: Moça que veio da água. A credulidade que gira em torno da lenda conduz a narrativa agradável do filme, realçando o conflito entre a crença e o ceticismo, presente no psicológico de seu elenco.

Lacrimogêneo, romântico, delicado, tocante Ondine de Jordan emociona por meio da bela paixão que une as personagens Farrell e Alicja, e seu mérito maior é conseguir camuflar um pano de fundo comum e corriqueiro com uma trama comovente sobre um amor inocente, carregado de significados de esperança e recomeço.
 
Márcio Malheiros França

sábado, 15 de dezembro de 2012

Crítica: Alguém para dividir os sonhos


Amizade sincera

Alguém para dividir os sonhos (EUA, 1993), dirigido por Tim Hunter (Looking Glass), versa sobre o dilema dos desabrigados e sua luta diária pela sobrevivência nas ruas da pólis. O roteiro do longa-metragem destaca a relação de respeito que surge entre os personagens centrais interpretados por Matt Dillon (Garotas selvagens) e Danny Glover (Bem amada). 

Em meio à penúria em que se encontram, Mattew/Dillon e Jerry/Glover buscam a quimera da estabilidade financeira como fator de motivação para seguir em frente.

Resilientes em seus conflituosos calvários, a dupla de protagonistas conserva os louváveis sentimentos de fraternidade e solidariedade que suavizam o peso de seus dramas pessoais. 

O jovem e ingênuo Mattew divide com o experiente veterano de guerra Jerry suas carências psicológicas e psiquiátricas. Já Jerry encontra no rapaz o ideal de família que tanto preservava em seu passado.

Lacrimogêneo, tocante, comovente Alguém para dividir os sonhos de Tim Hunter acerta na condução da narrativa e no tom realista e dramático de cada cena e mesmo sem grandes atuações de seus atores principais concebe uma obra profunda e relevante sobre a força que uma amizade sincera exerce na psique do ser humano, sobretudo em personas que sofreram demais.

Márcio Malheiros França